Rosangela_Aliberti

"Se a Arte tocar em algum ponto do homem é sinal que alcançou seu objetivo" (r_a)

Meu Diário
20/03/2015 20h27
Repara que o outono é mais estação da alma que da natureza. DRUMMOND

Fala amendoeira


Esse ofício de rabiscar sobre as coisas do tempo exige que prestemos alguma atenção à natureza - essa natureza que não presta atenção em nós. Abrindo a janela matinal, o cronista reparou no firmamento, que seria de uma safira impecável se não houvesse a longa barra de névoa a toldar a linha entre o céu e o chão - névoa baixa e seca, hostil aos aviões. Pousou a vista, depois, nas árvores que algum remoto prefeito deu à rua, e que ainda ninguém se lembrou de arrancar, talvez porque haja outras destruições mais urgentes. Estavam todas verdes, menos uma. Uma que, precisamente, lá está plantada em frente à porta, companheira mais chegada de um homem e sua vida, espécie de anjo vegetal proposto ao seu destino.

Essa árvore de certo modo incorporada aos bens pessoais, alguns fios elétricos lhe atravessam a fronde, sem que a molestem, e a luz crua do projetor, a dois passos, a impediria talvez de dormir, se ela fosse mais nova. Às terças, pela manhã, o feirante nela encosta sua barraca, e ao entardecer, cada dia, garotos procuram subir-lhe o tronco. Nenhum desses incômodos lhe afeta a placidez de árvore madura e magra, que já viu muita chuva, muito cortejo de casamento, muitos enterros, e serve há longos anos à necessidade de sombra que têm os amantes de rua, e mesmo a outras precisões mais humildes de cãezinhos transeuntes.

Todas estavam ainda verdes, mas essa ostentava algumas folhas amarelas e outras já estriadas de vermelho, gradação fantasista que chegava mesmo até o marrom - cor final de decomposição, depois a qual as folhas caem. Pequenas amêndoas atestavam o seu esforço, e também elas se preparavam para ganhar coloração dourada e, por sua vez, completado o ciclo, tombar sobre o meio-fio, se não as colhe algum moleque apreciador do seu azedinho. E como o cronista lhe perguntasse - fala, amendoeira - por que fugia ao rito de suas irmãs, adotando vestes assim particulares, a árvore pareceu explicar-lhe:

- Não vês? Começo a outonear. É 21 de Março, data em que as folhinhas assinalam o equinócio do outono.Cumpro meu dever de árvore, embora minhas irmãs não respeitem as estações.

- E vais outoneando sozinha?

- Na medida do possível. Anda tudo muito desorganizado, e, como deves notar, trago comigo um resto de verão, uma antecipação de primavera e mesmo, se reparares bem neste ventinho que me fustiga pela madrugada, uma suspeita de inverno.

- Somos todos assim.

- Os homens, não. Em ti, por exemplo, o outono é manifesto e exclusivo. Acho-te bem outonal, meu filho, e teu trabalho é exatamente o que os autores chamam de outonada: são frutos colhidos numa hora da vida que já não é clara, mas ainda não se dilui em treva. Repara que o outono é mais estação da alma que da natureza.

- Não me entristeças.

- Não, querido, sou tua árvore-da-guarda e simbolizo teu outono pessoal. Quero apenas que te outonizes com paciência e doçura. O dardo de luz fere menos, a chuva dá às frutas seu definitivo sabor. As folhas caem, é certo, e os cabelos também, mas há alguma coisa de gracioso em tudo isso: parábolas, ritmos, tons suaves... Outoniza-te com dignidade, meu velho.

Carlos Drummond de Andrade, in: Prosa Seleta Nova Aguilar,[Fala, amendoeira (1957)] volume único, p. 333-334

Nota: Favor não repassar a frase grifada como se fosse de Nietzsche

Photo: Adelino Ínsua / olhares


Publicado por Rosangela Aliberti em 20/03/2015 às 20h27
 
08/03/2015 18h00
Poema Cíclico - A Casa - Sambinha da Amizade de Anibal Beça©


Poema Cíclico

A trave dos meus olhos
é pólen de crisântemos:
farpas cronológicas
Metro a metro a seta ideográfica
abre aspas ao vento:
mandala vertical

Quem me confere
estas asas nubladas
de arcanjo do limbo?

Ah tempo adiposo
a marca do teu risco
esferográfico
abre mais mais uma estrada
(sem acostamentos)
paralela às estrias do sono.

Eis que a pálpebra de palha
se apresenta:
dos meus olhos saltam
pássaros ariscos

prontos a deflorar begônias
em setembro
e 38 ponteiros
(rubis ciclotímicos do silêncio)
acupunturam poros fóbicos:

Calendas
a fala do espelho
(espectador anônimo)
mostra-me por inteiro:
Vital conselho
entre o sudário que me hospeda
e a angústia que me habita.

A miração flutua narcisicamente
o rasto da sílaba
o grão onomástico sussurra:
Anibal.

Quão particular este silêncio
(viés oculto)
que me sabe desnudo
despudoramente nu
encalhado num atol:
leito circunscrito

às algas do meu avesso.

Sem embargo
trago sempre no alforje
um fardo de estrelas:
sei-me estivador
desse cais agônico
atarefado Sísifo


Anibal Beça. 


*

 
A Casa

A casa é o personalíssimo abrigo
construído na argamassa do inefável
entre cornijas evanescentes
para os andaimes do sonho

E nesse caso
o sonho – de tão especial –
não se discute o gosto:
Cada um
no seu cada qual

A casa
é o sobretudo da alma
de figurino único
talhada no corpo
por alfaiate exclusivo

Mesmo àquelas sem grife
(padronizadas em série)
dos conjuntos populares
apenas com um toque
um simples vaso de açucenas
debruado na janela
um rendilhado
uma cor mais forte e
pronto:
a magia se completa

E há quem diga:
– É a cara dos donos !
Mas há uma arquitetura
(que não se põe à mostra)
tecida em suas nervuras:
pequeno talhe de luz
de quem as habita

É o detalhe vivaz
como o último ramo
que os pássaros
– esses engenheiros do ar –
depositam nos ninhos
para o calor das horas

Aquilo
de quem se põe na vida
e para ela se constrói
num cotidiano de partilha

Bem assim
é esta casa
onde não se precisa
licença para entrar
Só uma exigência se impõe:
Traga consigo
Carinho paz e ternura
Tudo o mais é serventia da casa.

Anibal Beça

Amigo é Casa - Zé Renato e Zélia Duncan https://www.youtube.com/watch?v=2y26ytzo4k4

SAMBINHA DA AMIZADE

Amigo não tem dia pra louvar
toda hora é hora agá
amigo com defeito não existe
tudo é bom que se aviste.

E mais que tudo tudo é maravilha
há os que são como ilha
os cercados de amigos de verdade
nas águas da amizade.

Esse Dom é de poucos já se sabe
vontade que se cabe
em si e sem alarde, mas que invade

a vida, seus percalços e castigos
esse nó tão antigo
desfeito numa só palavra: Amigo! 


 Anibal Beça© 

http://amazonichaijin.blogspot.com/

(arte de origem
desconhecida)


Publicado por Rosangela Aliberti em 08/03/2015 às 18h00
Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons. Você pode copiar, distribuir, exibir, executar, criar obras derivadas, fazer uso comercial da obra, desde que seja dado crédito ao autor original.
 
01/03/2015 22h25
Texto ADULTERADO! Atenção para: A ESCOLHA DO SENTIMENTO

CASAMENTO e/ou  O  AMOR – Artur da Távola

Aos que não casaram, aos que vão casar, aos que acabaram de casar, aos que pensam em se separar, aos que acabaram de se separar, aos que pensam em voltar...
Por mais que o poder e o dinheiro tenham conquistado uma ótima posição no ranking das virtudes, o amor ainda lidera com folga. Tudo o que todos querem é amar. Encontrar alguém que faça bater forte o coração e justifique loucuras. Que nos faça entrar em transe, cair de quatro, babar na gravata.
Que nos faça revirar os olhos, rir à toa, cantarolar dentro de um ônibus lotado. Tem algum médico aí? Depois que acaba esta paixão retumbante, sobra o que? O amor. Mas não o amor mistificado, que muitos julgam ter o poder de fazer evitar. O que sobra é o amor que todos conhecemos, o sentimento que temos por mãe, pai, irmão, filho. É tudo o mesmo amor, só que entre amantes existe sexo. Não existem vários tipos de amor, assim como não existem três tipos de saudades, quatro de ódio, seis espécies de inveja. O amor é único, como qualquer sentimento, seja ele destinado a familiares, ao cônjuge ou a Deus. A diferença é que, como entre marido e mulher não há laços de sangue, a sedução tem que ser ininterrupta. Por não haver nenhuma garantia de durabilidade, qualquer alteração no tom de voz nos fragiliza, e de cobrança em cobrança acabamos por sepultar uma relação que poderia ser eterna.
Casaram. Te amo prá lá, te amo prá cá. Lindo, mas insustentável. O sucesso de um casamento exige mais do que declarações românticas.
Entre duas pessoas que resolvem dividir o mesmo teto, tem que haver muito mais do que amor, e às vezes nem necessita de um amor tão intenso. É preciso que haja, antes de mais nada, RESPEITO. Agressões zero.
Disposição para ouvir argumentos alheios. Alguma paciência... A
mor, só, não basta. Não pode haver competição.
Nem comparações. Tem que ter jogo de cintura para acatar regras que não foram previamente combinadas. Tem que haver bom humor para enfrentar imprevistos, acessos de carência, infantilidades. Tem que saber levar. Amar, só, é pouco. Tem que haver inteligência. Um cérebro programado para enfrentar tensões pré-menstruais, rejeições, demissões inesperadas, contas pra pagar. Tem que ter disciplina para educar filhos, dar exemplo, não gritar. Tem que ter um bom psiquiatra.
Não adianta apenas amar. Entre casais que se unem visando à longevidade do matrimônio tem que haver um pouco de silêncio, amigos de infância, vida própria, um tempo pra cada um.
Tem que haver confiança.
Uma certa camaradagem, às vezes fingir que não viu, fazer de conta que não escutou. É preciso entender que união não significa, necessariamente, fusão.
E que amar, 'solamente', não basta. Entre homens e mulheres que acham que o amor é só poesia, falta discernimento, pé no chão, racionalidade. Tem que saber que o amor pode ser bom, pode durar para sempre, mas que sozinho não dá conta do recado. O amor é grande, mas não é dois. É preciso convocar uma turma de sentimentos para amparar esse amor que carrega o ônus da onipotência. O amor até pode nos bastar, mas ele próprio não se basta.
Um bom amor aos que já têm!
Um bom encontro aos que procuram!
E felicidades a todos nós!


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APAIXONADOS – Martha Medeiros
 
No filme Crimes e pecados, de Woody Allen, um certo professor Levy, personagem da história, diz que nos apaixonamos para corrigir o nosso passado. Frase rápida, aparentemente  simples, e no entanto com um significado tão perturbador. A questão não é por que nos apaixonamos por Roberto e não por Vitor, ou por que nos apaixonamos por Elvira e não por Débora. A questão é: por que nos apaixonamos?
Estamos sempre tentando justificar a escolha de um parceiro em detrimento de outro, e não raro dizemos: “Não entendo como fui me apaixonar logo por ele”. Mas não é isso que importa. Poderia ser qualquer um. A verdade é que a gente decide se apaixonar. Está predisposto a envolver-se o candidato a esse amor tem que cumprir certos requisitos, lógico, mas ele não é a razão primeira de termos sucumbido.
A razão primeira somos nós mesmos. Cada vez que nos apaixonamos, estamos tendo uma nova chance de acertar. Estamos tendo a oportunidade de zerar nosso hodômetro. De sermos estreantes. Uma pessoa acaba de entrar na sua vida, você é 0km para ela. Tanto as informações que você passar quanto as atitudes que tomar serão novidade suprema – é a chance de você ser quem não
conseguiu ser até agora.

Um novo amor é a plateia ideal para nos reafirmarmos. Nada será cobrado nos primeiros momentos, você larga com vantagem, há expectativa em relação a suas ideias e emoções, e boa vontade para aplaudi-las. Você é dono do roteiro, você conduz a trama, apresenta seu personagem. Estar apaixonado por outro é, basicamente, estar apaixonado por si mesmo, em novíssima versão. É arriscado escrever sobre um tema que é constantemente debatido por profissionais credenciados para tal, mas não consigo evitá-lo. Mesmo amadora, sempre fui fascinada pelas sutilezas das relações amorosas. Cada vez que alguém diz que está precisando se apaixonar, está é precisando corrigir o passado, como diz o personagem do filme. Quantas mulheres e homens manifestam, entre suspiros, esse desejo, mesmo estando casados? Um sem-número deles, quase todos nós, atordoados com a própria inquietude. E no entanto é simples de entender.” Mesmo as pessoas felizes precisam reavaliar escolhas, confirmar sentimentos, renovar os votos. Apaixonar-se de novo pelo mesmo marido ou pela mesma mulher nem sempre dá conta disso. Eles já conhecem todos os nossos truques, sabem contra o que a gente briga, e no momento o que precisamos é de alguém virgem de nós, que permita a recriação de nós mesmos. Precisamos nos apaixonar para justamente corrigir o que fizemos de errado enquanto compartilhávamos a vida com nossos parceiros.
Sem que isso signifique abrir mão deles. Isso explica o fato de as pessoas sentirem necessidade
de relações paralelas mesmo estando felizes com a oficial. Explica, mas não alivia. Como é complicado viver.  

Martha Medeiros, in: Coisas da Vida

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O fim do amor

Será possível esquecer um grande amor, mesmo que não sobreviva mais o amor?
Mais fortes que o desejo de esquecer são as transformações físicas que se abatem sobre quem terminou um grande amor, coração batendo a mil, adrenalina, borboletas no estômago.
Os médicos dizem que quem terminou um grande amor tem de reforçar as emoções negativas ligadas à pessoa e mudar o foco.
Em suma, dá para traduzir, para se esquecer um grande amor e expulsá-lo das nossas entranhas só existe uma receita: arranjar um outro grande amor.
Caso contrário, vai se repetir o ramerrão.
*
E diz mais um famoso neurologista: ficar só, não amar mais, não ajuda a superar o caso.
Vejam que mão de obra: seu amor pode ter azedado, mas as lembranças negativas permanecem e fazem disparar as reações físicas adversas. Ou seja, o amor perdido permanece no ser da gente, ainda que as lembranças últimas que se tenha dele sejam negativas.
Porque as impressões do namoro permanecem inalteradas.
*
Quando se acaba um grande amor, as impressões residuais, inclusive as manifestações físicas delas decorrentes, sequestram os pensamentos, não precisa que a gente se recorde do ex, o córtex pré-frontal traz à tona as lembranças da relação perdida, mesmo que a pessoa não faça mais parte da sua vida.
É tão grande o dano causado a uma pessoa que terminou uma relação de amor, que dificilmente ele se apagará.
O que remete ao risco que todo grande amor encerra: o do fim. Encerrar um caso de amor, portanto, não é dar fim à dor. É dar trânsito a ela com o distanciamento.
*
O tempo, pois, não apaga a lembrança de um grande amor. Essa recordação incômoda ou cruciante é como os vícios, não se pode livrar-se deles.
Por isso é que às vezes constatamos pessoas que praticamente tiveram suas vidas tortas ao findarem um relacionamento: por mais que dissimulem, não é difícil notar que a vida para elas se acabou.
*
Por onde for alguém que teve um grande amor interrompido, a lembrança dolorida do caso irá também trilhando as mesmas ruas.
Um grande amor perdido se cola ao corpo, senão como tatuagem, então como cicatriz.
É impossível apagar a sua marca. Porque ele deixou vestígios irremovíveis.
Se não arranjar um outro grande amor, você será para sempre um ser arrastado e inútil.
*
Pressentindo isso é que muitas pessoas revelam um temor, que chega quase à ojeriza, em se apaixonarem: sabiamente intuem que o amor pode terminar um dia e será impossível sustentar a dor da lembrança dele, repito, mesmo que já não se ame mais a outra pessoa.
É o tal de medo do amor, medo do envolvimento.
Não amar, por incrível que pareça, é melhor do que ter o coração dilacerado pela separação amorosa.

Paulo Sant’Anna 15 de dezembro de 2012
http://wp.clicrbs.com.br/paulosantana/2012/12/15/o-fim-do-amor-5/?topo=13,1,1,,,13

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Um texto surgiu com a pergunta para a comunidade: Afinal quem é o autor? Visto que não apresenta(va) NENHUM dos autores apontados entre parenteses, seguem os devidos créditos:

 

A ESCOLHA DO SENTIMENTO

Por mais que o dinheiro e o poder tenham conquistado uma ótima posição “no ranking das virtudes, o amor ainda lidera com folga. Tudo o que todos querem é amar, encontrar alguém que faça bater mais forte o coração e justifique loucuras.” → (Artur da Távola)


Essa semana escutei uma frase em um encontro e bate-papo com amigos:“Ta complicado, por que fui me apaixonar”? “Não amar, para muitas pessoas por incrível que pareça, ainda é melhor do que ter o coração dilacerado por uma possível separação amorosa.”→ (Paulo Sant’Ana)

É o tal medo do amor, medo do envolvimento. É verdade também, que o candidato a este ou aquele amor tem que cumprir certos requisitos, como aquela outra pergunta: “Tu achas ele (a) bonito (a)”? A questão é que sempre estamos tentando justificar a escolha do sentimento de um parceiro em detrimento do outro. Não decidimos em nos apaixonar, somos envolvidos avassaladoramente por sentimentos e por um amor capcioso. Assisto, que cada vez que “nos apaixonamos, estamos tendo uma nova chance de acertar,” → (Martha Medeiros, in: Coisas da Vida) de nos renovar, estamos tendo a oportunidade de escrever uma nova história, de sermos estreantes em uma trama, muito embora alguns já tenham feito papel de coadjuvantes ou anônimos. Qualquer papel e interpretação que você assumir, quanto às atitudes que tomar serão novidades é a chance de você ser um personagem novo. “Um novo amor é a plateia ideal para nos reafirmarmos.” →(Martha Medeiros, in: Coisas da Vida) Você é o diretor, dono do roteiro, você conduz os episódios e apresenta seu personagem sob a sua melhor performance. →(plágio do texto de Martha Medeiros do livro Coisas da Vida) Estar apaixonado por outro, é basicamente estar apaixonado por si mesmo, porém em outra versão, pois temos que nos engrandecer, mas para isso temos que usar nosso próprio papel e a nós mesmos. Mesmo as pessoas felizes precisam reavaliar escolhas, confirmar sentimentos, renovar votos, corrigir erros, e apaixonar-se de novo pelos seus próprios parceiros, nem sempre dá conta disso, eles já conhecem todos os truques e figurinos, sabem contra o quê brigamos, nos tornando previsíveis. Muitas vezes o que “precisamos é de alguém “virgem” de nós, que permita uma (re) criação de nós mesmos.” → (Martha Medeiros, in: Coisas da Vida) Em suma, "amar não requer um conhecimento prévio de uma escolha, nem consulta aos capítulos anteriores, ama-se pelo que o amor tem de indefinível.  →(Martha Medeiros, em Crônica do Amor vide: http://www.rosangelaliberti.recantodasletras.com.br/blog.php?idb=26611)

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Nota: De acordo com o Código Penal Brasileiro, em vigor, no Título que trata dos Crimes Contra a Propriedade Intelectual, nós nos deparamos com a previsão de crime de violação de direito autoral – artigo 184 – que traz o seguinte teor: Violar direito autoral: Pena – detenção, de 3 (três) meses a 1 (um) ano, ou multa. E os seus parágrafos 1º e 2º, consignam, respectivamente:

§1º Se a violação consistir em reprodução, por qualquer meio, com intuito de lucro, de obra intelectual, no todo ou em parte, sem autorização expressa do autor ou de quem o represente, (...): Pena – reclusão, de 1 (um) a 4 (quatro) anos, e multa, (...).

§ 2º Na mesma pena do parágrafo anterior incorre quem vende, expõe à venda, aluga, introduz no País, adquire, oculta, empresta, troca ou tem em depósito, com intuito de lucro, original ou cópia de obra intelectual, (...), produzidos ou reproduzidos com violação de direito autoral.

 


Publicado por Rosangela Aliberti em 01/03/2015 às 22h25
Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons. Você pode copiar, distribuir, exibir, executar, criar obras derivadas, fazer uso comercial da obra, desde que seja dado crédito ao autor original.
 
18/02/2015 20h12
Um dia, um pai, grande empresário, de família muitíssima rica (...)

Um dia, um pai, grande empresário, de família muitíssimo rica, levou seu filho de seis anos para viajar até um lugarejo com o firme propósito de mostrar ao menino como é que pessoas tão pobres podem viver em um mundo, onde só ricos e poderosos têm vez e voz. Passaram dois dias e duas noites no sítio de uma família muito pobrezinha...

Quando retornaram da viagem, o pai perguntou ao filho: - "E ai filhão, como foi a viagem para você?"

- "Muito boa papai", respondeu o pequeno.

- "Você viu filho, como as pessoas pobres podem ser? Não sei como é que existe gente assim no mundo não é filhão?"

- "Sim pai.", retrucou o filho, pensativamente.

- "E o que você aprendeu, com tudo o que viu nesses dias, naquele lugar tão paupérrimo?"

O menino respondeu: - "É pai, eu vi que nós temos só um cachorro em casa, e eles têm quatro.

Nós temos uma piscina que alcança o meio do jardim; eles têm um riacho que não tem fim.

Nós temos uma varanda coberta e iluminada com florescentes e eles têm as estrelas e a lua no céu. Nosso quintal vai até o portão de entrada e eles têm uma floresta inteira.

Nós temos alguns canários que por cima de tudo vivem presos em uma gaiola e eles têm todas as aves que a natureza pode oferecer-lhes, soltas!

Nossa comida é toda industrializada e a maioria das vezes congelada. A deles é pescada no riacho, colhida na horta ou que pegam no terreiro, enfim papai, a alimentação deles é saudável, enquanto que a nossa não.

E além do mais papai, observei que eles rezam antes de qualquer refeição, enquanto que nós aqui em casa sentamos à mesa falando de etiquetas, negócios, cotação do dólar, eventos sociais, comemos, empurramos o prato e pronto!

No quarto onde fui dormir com o Tonho, passei vergonha pois não sabia sequer orar, enquanto que ele se ajoelhou e orou agradecendo a Deus, tudo, inclusive a nossa visita na casa deles; e nós, aqui em casa, vamos para o quarto, deitamos, assistimos televisão e dormimos.

Outra coisa papai, dormi na rede do Tonho, enquanto que ele dormiu no chão, pois não havia uma rede para cada um de nós, enquanto que aqui na nossa casa colocamos a Maristela, nossa empregada, para dormir naquele quarto onde guardamos entulhos, coitada, sem nenhum conforto, ao passo, que temos camas macias e cheirosas sobrando, mas fazer o que não é pai, se elas são só para aqueles hospedes chatos e gananciosos que sempre vem nos visitar!"

Conforme o pequeno garoto falava, seu pai ficava estupefato, sem graça, envergonhado. E o filho na sua sábia ingenuidade e no seu brilhante desabafo, levantou-se, abraçou o pai e ainda acrescentou: - "Obrigado papai, por me haver mostrado o quanto "pobres e mesquinhos" nós somos!"

SEJAMOS FELIZES

(Desconheço o autor)

(foto:web)

 


Publicado por Rosangela Aliberti em 18/02/2015 às 20h12
 
27/01/2015 23h08
Vinhos - Luis Fernando Verissimo e texto apócrifo: Beba vinho para o espírito

Vinhos

Já se disse mais bobagem sobre vinhos do que sobre qualquer outro assunto, com a possível exceção do orgasmo feminino e da vida eterna. Isto porque é impossível transformar em palavras as qualidades ou defeitos de um vinho ou as sensações que ele
provoca, assim como é impossível, por exemplo, descrever um cheiro ou um gosto. Tente descrever o sabor de uma amora. Além de amplas e vagas categorias como “doce”, “amargo”, “ácido” etc., não existem palavras para interpretar as impressões do paladar.

Estamos condenados à imprecisão ou ao perigoso terreno das metáforas. Tudo é literatura.

— Mmmm, este vinho... Reticente, algo contido. Mas nota-se uma clara disposição para romper os grilhões. Não dou um ano para ele descobrir a vida e a vida descobri-lo.

— Certo. Mas ou muito me engano ou detecto uma certa presunção...

— Que poderá derrotá-lo, no fim.

— Certo. Você diria que ele é de esquerda?

— Hmmm. Deixa ver. Social-democrata. Definitivamente social-democrata. Mas a literatura, às vezes, é melhor do que o vinho. No livro Brideshead Revisisted de Evelyn Waugh, o narrador descreve um jantar num restaurante francês — sopa de oseille, filé de peixe em vinho branco, caneton à la presse, suflê de limão — com Rex, um canadense insuportável que só fala de doença e dívidas. Waugh fala do vinho: “Durante séculos, todos os idiomas se esforçavam em definir sua beleza e produziram apenas conceitos destemperados ou os epítetos tradicionais do ramo. Este borgonha me parecia sereno e triunfante, uma lembrança de que o mundo era um lugar mais antigo e melhor do que Rex sabia, que a humanidade na sua longa paixão conquistara outra sabedoria que não a sua.”  Perfeito. Um gole de vinho extraordinário nos dá um gosto desta sabedoria acumulada no mundo, tão profunda que a linguagem não a alcança, tão completa que não precisa de metáforas, e mais antiga e melhor do que as pobres aflições do cotidiano. O borgonha a que se refere é um Clos de Bère de 20 anos.

No mesmo livro, na mesma cena, Waugh escreve que Rex insistia em falar na sua própria vida, mas que isto podia esperar “pela hora da tolerância e da repleção, pelo conhaque. Podia esperar até que a atenção estivesse entorpecida e se ouvisse com apenas metade da mente. Agora, no momento crucial em que o maître virava os blinis na panela e, ao fundo, dois homens mais humildes preparavam a prensa para o caneton, falaríamos de mim”.

A hora do conhaque é a hora da satisfação tão plena que qualquer assunto é aceitável, até a vida dos outros. Na hora do aperitivo fala-se em trivialidades, como o fim provável do mundo por estes dias ou a cotação do ouro. Com o vinho branco devemos ser brilhantes sem que isto ofusque o peixe. Frases rarefeitas que se desmanchem antes de chegar ao teto. Com o vinho tinto, sim, devemos chegar à essência das coisas, às definições, aos ossos da existência, cuidando para não manchar a camisa. Isto é, falarmos de Deus e de nós mesmos como se a distinção fosse obscura.

— Um dos prazeres da meia-idade — diz ele, fazendo girar o borgonha no copo — é que podemos assumir todos os nossos preconceitos sem medo de cair de moda.

— Eu também — diz o outro. — Eu...

— Espere. Estamos falando de mim. Depois, seguindo uma hierarquia natural,
falaremos de você.

A hora do conhaque é a hora do semicoma, que passa por generosidade. Tolerância e repleção. Um homem em paz com o universo e com a sua barriga está disposto a tudo, até a ouvir. Porque não ouve mais nada.

No último parágrafo deste capítulo exemplar, Waugh escreve: “Ele acendeu seu charuto e sentou para trás, em paz com o mundo; eu também estava em paz, com outro mundo. Ambos estávamos satisfeitos. Ele falou sobre Júlia e eu ouvi sua voz, ininteligível, a uma grande distância, como um cachorro latindo a milhas dali numa noite silenciosa.”

— Experimente este rosé...

— Você sabe o que dizem os franceses?

— O quê?

— O tinto para os franceses, o branco para os americanos, o rosé para os idiotas.

— Suponho que você esteja me chamando de idiota.

— Suponho que sim.

— Então...

— Metaforicamente, é claro.

— À sua saúde. Metaforicamente.

— À sua.

— Que você tenha só filhos homens, e todos sejam costureiros.

— Que a pomba da paz lance suas dádivas sobre sua cabeça e sua roupa nova...

— Que o senhor o leve bem cedo para o Seu lado.

— Que você tenha muito dinheiro e tempo para aplicá-lo numa financeira paulista, e que o Banco Central feche a financeira no dia seguinte.

— Noto que você não está bebendo seu rosé. Isto é um insulto.

— Proponho que se discuta isto sobre o conhaque.

— Território neutro...

— Isso.

Luis Fernando Verissimo, in: A mesa voadora

...............................

“Beba vinho para o espírito,
beba vinho para a boa digestão,
beba vinho na festa,
beba vinho na solidão,
beba vinho por cultura,
beba vinho por educação,
beba vinho porque... 
enfim, encontrarás uma razão.”

TEXTO APÓCRIFO
de Luis Fernando Verissimo, carece de fontes.

 

 


Publicado por Rosangela Aliberti em 27/01/2015 às 23h08
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