Rosangela_Aliberti

"Se a Arte tocar em algum ponto do homem é sinal que alcançou seu objetivo" (r_a)

Textos


Registro

Todo operário já foi vigário,
foi tomado por Cristo,
traidor, assassino ou otário
todo operário já foi pedreiro
arquiteto, ladrão,
carpinteiro ou escultor.

Se todo operário da rosa é jardineiro...
pergunto aos operários das naus,
que atravessam os sete mares
– nós
no caos
almirante e marinheiros:
- Operário da escrita, por que bordas versos?

O operário necessita de papel...
pés dos faunos te assustam?
nos jardins da insônia há ébrios e ébrios
com as pálpebras bem pesadas
pelas areias de Morph_eus...
cornos de bronze, tinta e camisas-de-força
se ajustam.

Da caneta sopram ares de indignação
esvaziando as inspirações de dois densos pulmões
caminhando por frestas desconhecidas
por vezes faço uso da metalinguagem
muitas vezes mal vista
(há buracos negros que jamais serão preenchidos,
- cuspo sobre papéis de seda)

O que explica a tua escrita bendita?
o que há por detrás desta janela fechada
maldita?
Uma luz apagada...
se toda alma tem uma essência
vista-a com um poema
se na torre ou na cabeça da maria
há fumaça
não há pó
mesmo assim de olhos abertos
(torne-se papudo, sem
ser bicho-papão demolidor)
se posso renascer numa caverna escura
numa cama de ébano
adornada com pétalas de amores
-perfeitos
e a cada forma moldada
comemoro
como se uma vela despontasse
no topo de um enorme bolo:
toma um cigarro de palha sem o ter.

Todo poeta casa com letras
dita a dor e guarda amores
na Casa da poesia
e no fundo me pergunto: 
- Será que todos sabem bem o porquê?

Operários nas ondas não sentem medo de papéis.
Em nome deste corpo te batizo: Registro.

O operário escreve no mar?
O principal operário na ópera é um ensaísta
antropófago é um compositor...
...na ilusão de um grande oceano
a mente sobrevive até na seca:
seja o material da máscara de papier-mâché
senta em algum chão betumado
retira fragrâncias de crepons enrugados
rabisca algo no presente que será parte do passado
nos papéis de embrulho
no papel de parede
no papel vergê
no prateado do alumínio
carimbe estrelas
na tela recém digitada
no final do dia
haverá mais cheiro de vida
do que pavios em parafinas.

Rosangela_Aliberti
São Paulo, nov-08
Arte: Tarsila do Amaral
(Mote: Oficina de Rascunhos Poéticos)


Rosangela Aliberti
Enviado por Rosangela Aliberti em 25/11/2008
Alterado em 22/01/2009
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