Rosangela_Aliberti

"Se a Arte tocar em algum ponto do homem é sinal que alcançou seu objetivo" (r_a)

Textos


[Boas Festas! embrião das Letras]
 

Lamento, por seu pensamento ser ainda tão retilíneo: por não sentir ainda o que vemos se aventurando no breu do acadêmico. Sim, há palavras que descem densas como os goles nos bons vinhos tinto seco, mas existem pessoas que valsam nas nuvens: sem o branco, sem o caldo das xícaras, sem os pingos da água que ardem, ele nunca teve a sensação da dor no osso no fundo do poço sem  a n e s t e s i a.

Ele nunca admirou a falta dos braços da Vênus de Milo com os ouvidos cansados da fuga de Bach, ele nunca sentiu as vertigens das ilhas, nunca entrou em combates quixoteando textos com ou sem lanças, nunca deu coices nas foices, nunca brincou no buraco de Cronos, o dono do tempo.

Ele nunca aguçou o olhar ímpar no brilho das pautas, nunca desejou feliz aniversário para nenhum Cristo, quanto mais deu Boas Festas a um pobre vampiro ou um mero demônio, ele nunca enterrou  um de seus melhores amigos, nem rezou com vontade por um de seus piores inimigos que acabou de visitar a sepultura.

Ele nunca se sentiu um fruto partido... no meio... dentro de uma lata de conservas... nunca sentou numa cadeira com ar de confessor, não levou alguma folha verde até um formigueiro, nunca ironizou  “macacos e reis”, nem xingou duas árvores plantadas na frente do caixa na fila de um banco e aprendeu a levar um livro para o tempo passar mais rápido por lá, ele jamais puxou um gatilho contra as partes de si mesmo, não choveu de saudade de si cheirando bem de perto o desgosto, ele nunca passou por cima de fraturas expostas, nunca mastigou vidro, não queimou como fogo, nem cuspiu penas de pássaros, nunca averiguou o que há por atrás das tumbas e diz que sente felicidade... só nos umbrais (?), nunca esmagou pedras inúteis, ele nunca feriu ou sujou as mãos...

Lamento novamente, por seu pensamento ser ainda tão retilíneo, lamento por ele ainda não ter paciência para separar o joio do trigo, meu lamento segue porque ele nunca se sentiu perseguido por uma mesma música num dia inteirinho com forças para desencalhar do timbre das sereias ...ele ainda não sabe como dinamitar paredes e nem se perde (pausa) nos quadros como os de Vermeer; nunca se extasiou diante do nada com tudo o que há; se Einstein afirmou que "Deus não joga dados com o universo" podemos deduzir que as coisas estão corretas no lugar onde estão. Boas Festas, siga as canções de seu coração sem hipocrisia a época do Natal movimenta o renascimento da Esperança e bem que poderia ser constante no dia a dia de muita gente, a vida não pode ser tão vazia.

...Ele nunca inseriu vento para movimentar moinhos; nunca derrubou cavalos em éle, nem torres com uma asa quebrada nas costas...

Sei, que ele nunca se resolveu estando sozinho - na angústia - ele nunca sentiu a perplexidade de ver outra pessoa sangrar, nunca agitou bandeiras que não fossem as suas... ele nunca moveu um palha para sair de onde está... não jogou um chapéu por cima da cabeça ao ver alguma embarcação zarpar para outro país, pois tem tanto receio da camisa-de-força, prefere a clausura da construção de uma máscara de ferro (e se diz maluco?). Maluco é quem devora pombas e pensa que está ingerindo caviar, maluco é quem pinta girassóis punks de pink, maluco é quem pergunta à uma roseira: - Para que tantos espinhos? Maluco é quem perde tempo justificando um vício. Maluco é quem olha para um milharal dando o mesmo valor a gramas de ouro. Maluco é ser peixe-voador e... herói é aquele que insiste em se debater quase sem ar amanhecendo noutro dia sorrindo... depois de enfrentar sessões de hemodiálise durante a semana.
 
Afinal, o que é a Vida fora da (sua) pena?

Um brinde a ele que nunca se encontrou ansioso numa sala de espera; ao que nunca aceitou suas próprias respostas limítrofes; àquele que nunca caiu fora da borda do co(r)po; nunca sobrevoou ou apagou uma linha cheia de raiva, nunca rasgou os vãos dos vales com o coração repleto de tintas azuis e cinzas. Para quem tem a faca e o queijo na mão... por que será que tem tanto receio do nome de Lúcifer?!

Bem-vindo ao mundo onde cobras aprendem a não ter medo de balaios de serpentes nem da ghaita de seus encanta_dores.

Espero que um dia ele, escritor, desfaça os nós emgripados de correntes... ao provar realmente o amargor e a doçura de ser Poesia, aguardo em um mês qualquer que ele ouse oferecer a outra face a algum Judas hipnótico ou que beije os pés de alguns anjos sem nunca perder a fé (nos deuses).

Tem gente que se autoproclama escritor... será?

Bem-aventurados os caramujos, os espelhos, os túneis, as ovelhas e os lobos, os faróis, os cães os gatos, os imitadores que não plagiam, os muros e os ratos do esgoto, os polvos, as pústulas, as pontes podres e as fortes. Bem-aventurados os que tem tapas com luvas de pelica, os papos dos pelicanos, as luzes estranhas das estrelas e a vozes dos fingidores, os gênios e os médicos da gramática, os arquitetos, os carpinteiros e os alquimistas... e, como diria Walther Waeny: “As únicas pessoas que não têm respeito pelos escritores são os outros escritores.”

Rosangela_Aliberti
São Paulo, 13.XII.08
Mote oferecido: Oficina de Rascunhos Poéticos.

*

Linus explica o Natal
http://www.youtube.com/watch?v=kYov5b18xzM&feature=related

Vanessa Mae - Toccata & Fugue (Full Version) by J.S Bach
http://br.youtube.com/watch?v=OsCFHBYp-eA&feature=related

(art by Vermeer – vista de Delft)

Rosangela Aliberti
Enviado por Rosangela Aliberti em 15/12/2008
Alterado em 21/12/2009
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