Rosangela_Aliberti

"Se a Arte tocar em algum ponto do homem é sinal que alcançou seu objetivo" (r_a)

Meu Diário
23/10/2013 22h21
A escola das facas - João Cabral de Melo Neto

A escola das facas

O alíseo ao chegar ao Nordeste 
Baixa em coqueirais, canaviais;
cursando as folhas laminadas
se afia em peixeiras, punhais.

Por isso sobrevoas a Mata,
suas mãos, antes fêmeas, redondas,
ganham fome e dente da faca
com que sobrevoa outras zonas,

O coqueiro e a cana lhe ensinam, 
sem pedra-mó, mas faca a faca, 
como voar o Agreste e o Sertão: 
mão cortante e desembainhada.

João Cabral de Melo Neto
in: Melhores Poemas, 
Global Editora, p. 209

(arte de origem desconhecida)

 

 


Publicado por Rosangela Aliberti em 23/10/2013 às 22h21
 
19/10/2013 18h00
Azul e branco - Vinicius de Moraes

Azul e branco


Concha e cavalo-marinho
Mote de Pedro Nava

I

Massas geométricas
Em pautas de música
Plástica e silêncio
Do espaço criado.

Concha e cavalo-marinho.

O mar vos deu em corola
O céu vos imantou
Mas a luz refez o equilíbrio.

Concha e cavalo-marinho.

Vênus anadiômena
Multípede e alada
Os seios azuis
Dando leite à tarde
Viu-vos Eupalinos
No espelho convexo
Da gota que o orvalho
Escorreu da noite
Nos lábios da aurora.

Concha e cavalo-marinho.

Pálpebras cerradas
Ao poder violeta
Sombras projetadas
Em mansuetude
Sublime colóquio
Da forma com a eternidade.

Concha e cavalo-marinho.

II

Na verde espessura
Do fundo do mar
Nasce a arquitetura.

Da cal das conchas
Do sumo das algas
Da vida dos polvos
Sobre tentáculos
Do amor dos pólipos
Que estratifica abóbadas
Da ávida mucosa
Das rubras anêmonas
Que argamassa peixes
Da salgada célula
De estranha substância
Que dá peso ao mar.

Concha e cavalo-marinho.

Concha e cavalo-marinho:
Os ágeis sinuosos
Que o raio de luz
Cortando transforma
Em claves de sol
E o amor do infinito
Retifica em hastes
Antenas paralelas
Propícias à eterna
Incursão da música.

Concha e cavalo-marinho.

III

Azul... Azul...

Azul e Branco
Azul e Branco
Azul e Branco
Azul e Branco
Azul e Branco
Azul e Branco
Azul e Branco
Azul e Branco
Azul e Branco
Azul e Branco
Azul e Branco
Azul e Branco
Azul e Branco
Azul e Branco

Concha...

e cavalo-marinho.

[Vinícius de Moraes]

http://www1.folha.uol.com.br/ilustrissima/2013/04/1269952-palacio-capanema-um-marco-estetico-mundial.shtml


Medo de Amar (Vinícius de Moraes) na voz de Tom Jobim http://www.youtube.com/watch?v=SGKbuOauocM

 

(Photo1: Galeria da Flickr) // Ilustração: Catrin Welz-Stein


Publicado por Rosangela Aliberti em 19/10/2013 às 18h00
 
29/09/2013 21h14
Da árvore da Montanha - Nietzsche

Da Árvore da Montanha

Os olhos de Zaratustra tinham visto um mancebo que evitava a sua presença. E, uma tarde, ao atravessar sozinho as montanhas que rodeiam a cidade denominada "Vaca Malhada", encontrou esse mancebo sentado ao pé de uma árvore, dirigindo ao vale um olhar fatigado. Zaratustra agarrou a árvore a que o mancebo se encostava e disse: "Se eu quisesse sacudir esta árvore com as minhas mãos não poderia; mas o vento que não vemos açoita-a e dobra-a como lhe apraz. Também a nós mãos invisíveis nos açoitam e dobram rudemente".

A tais palavras, o mancebo ergueu-se assustado, dizendo: "Ouço Zaratustra, e positivamente estava a pensar nele".
"Por que te assustas? O que sucede à arvore sucede ao homem. Quanto mais se quer erguer para o alto e para a luz, mais vigorosamente enterra as suas raízes para baixo, para o tenebroso e profundo, para o mal".

"Sim; para o mal! - exclamou o mancebo - Como é possível teres descoberto a minha alma?"

Zaratustra sorriu e disse: "Há almas que nunca se descobrirão, a não ser que se principie por inventá-las".

"Sim; para o mal! - exclamou outra vez o mancebo. Dizias a verdade, Zaratustra. Já não tenho confiança em mim desde que quero subir às alturas, e já nada tem confiança em mim. A que se deve isto? Eu me transformo muito depressa: o meu hoje contradiz o meu ontem. Com freqüência salto degraus quando subo, coisa que os degraus não me perdoam. Quando chego em cima, sempre me encontro só. Ninguém me fala; o frio da solidão faz-me tiritar. Que é que quero, então, nas alturas? O meu desprezo e o meu desejo crescem a par; quanto mais me elevo mais desprezo o que se eleva? Como me envergonho da minha ascensão e das minhas quedas! Como me rio de tanto anelar! Como odeio o que voa! Como me sinto cansado nas alturas!"

O mancebo calou-se. Zaratustra olhou atento a árvore a cujo pé se encontravam e falou assim: "Esta árvore está solitária na montanha. Cresce muito sobranceira aos homens e aos animais. E se quisesse falar ninguém haveria que a pudesse compreender: tanto cresceu. Agora espera, e continua esperando. Que esperará, então? Habita perto demais das nuvens: acaso esperará o primeiro raio?"

Quando Zaratustra acabava de dizer isto, o mancebo exclamou com gestos veementes: "É verdade, Zaratustra: dizes bem. Eu ansiei por minha queda ao querer chegar às alturas, e tu eras o raio que esperava. Olha: que sou eu, desde que tu nos apareceste? A inveja aniquilou-me!" Assim falou o mancebo, e chorou amargamente. Zaratustra cingiu-lhe a cintura com o braço e levou-o consigo.

Depois de andarem juntos durante algum tempo, Zaratustra começou a falar assim: "Tenho o coração dilacerado. Melhor do que as tuas palavras, dizem-me os teus olhos todo o perigo que corres. Ainda não és livre, ainda procuras a liberdade. As tuas buscas desvelaram-te e envaideceram-te de maneira excessiva. Queres escalar a altura livre; a tua alma está sedenta de estrelas; mas também os teus maus instintos têm sede de liberdade. Os teus cães selvagens querem ser livres; ladram de prazer no seu covil quando o teu espírito tende a abrir todas as prisões. Para mim, és ainda um preso que sonha com a liberdade. Ai, a alma de presos assim torna-se prudente, mas também astuta e má. O que libertou o teu espírito necessita ainda purificar-se. Ainda lhe restam muitos vestígios de prisão e de lodo: é preciso, todavia, que a tua vista se purifique. Sim; conheço o teu perigo; mas por amor de mim te aconselho a não afastares para longe de ti o teu amor e a tua esperança!

Ainda te reconheces nobre, assim como nobre te reconhecem os outros, os que estão mal contigo e te olham com maus olhos. Fica sabendo que todos tropeçam com algum nobre no seu caminho. Também os bons tropeçam com algum nobre no seu caminho, e se lhe chamam bom é tão-somente para o pôr de lado. O nobre quer criar alguma coisa nobre e uma nova virtude. O bom deseja o velho e que o velho se conserve. O perigo do nobre, contudo, não é tornar-se bom, mas insolente, zombeteiro e destruidor. Ah, eu conheci nobres que perderam a sua mais elevada esperança. E depois caluniaram todas as elevadas esperanças. Agora têm vivido abertamente com minguadas aspirações, e apenas planejaram um fim de um dia para outro.

"O espírito é voluptuosidade" - diziam. E então o seu espírito quebrou as asas; arrastar-se-à agora de trás para diante, maculando tudo quanto consome. Noutro tempo pensavam fazer-se heróis; agora são folgazões. O herói é para ele aflição e espanto. Mas, por amor de mim e da minha esperança te digo: não expulses para longe de ti o herói que há na tua alma! Santifica a tua mais elevada esperança!"

Assim falou Zaratustra.

NIETZSCHE

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Da Árvore da Montanha 
(...) Assim falou Zaratustra
- NIETZSCHE

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Wenn ein Baum am Himmel rühren will, müssen seine Wurzeln bis tief in die Hölle dringen (Nietzsche) Trad:. Se uma árvore quer tocar o céu, suas raízes devem penetrar profundamente no inferno (Nietzsche)

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Visite a comunidade: Afinal, quem é o autor? (Facebook)

 


Publicado por Rosangela Aliberti em 29/09/2013 às 21h14
 
09/09/2013 16h52
FRASES CLARICEANAS

Frases do livro “Um sopro de vida” ou “Pulsações”

Eu escrevo como se fosse para salvar a vida de alguém. (pág. 11)

Eu não faço literatura: eu apenas vivo ao correr do tempo. O resultado fatal de eu viver é o ato de escrever. (pág. 15)

Vida não tem adjetivo. (pág. 19)

O que sinto não é traduzível. Eu me expresso melhor pelo silêncio.  (pág. 31)

Eu sou oblíqua como o voo dos pássaros. (pág. 34)

Para escrever eu antes me despojo das palavras. Prefiro as palavras pobres.(pág. 39)

Quando chover quero que caia sobre mim, abundantemente. Abrirei a janela de meu quarto e receberei nua a água do céu.  (51)

O futuro é um pássaro que ainda não se realizou. (pág. 50)

A mais bela música do mundo é o silêncio interestrelar. (pág. 64)

O que me mata é o cotidiano. Eu queria só exceções. Estou perdida: eu não tenho hábitos. (pág. 66)

Sou um mendigo de barba cheia de piolhos sentado na calçada da rua chorando.  (pág. 89)

A palavra é um dejeto do pensamento. Cintila. (pág. 93)

Cada livro é sangue, é pus, é excremento, é coração retalhado, e nervos fragmentados, é choque elétrico, e sangue coagulado escorrendo como lava fervendo pela montanha abaixo. (pág. 93)

Me coisificam quando me chama de escritor. Nunca fui e nunca serei. Recuso-me a ter papel de escriba no mundo. (pág. 94)

Escrever __ eu arranco as coisas de mim aos pedaços como o arpão fisga a baleia e lhe estraçalha a carne... (pág. 99)

A morte é o perigo constante da vida. (pág. 157)

...O perigo é o que torna preciosa a vida (pág. 157)

Não pense que escrevo aqui o meu mais íntimo segredo pois há segredos que eu não conto nem a mim mesma. (pág. 158)

A manhã é uma flor prematura. (pág. 160)

Era um dia um homem que andou, andou e andou e parou e bebeu água gelada de uma fonte. Então sentou-se numa pedra e repousou o seu cajado. Esse homem era eu. E Deus estava em paz. (pág. 161)

Cada livro é uma viagem. Só que é uma viagem de olhos vendados em mares nunca dantes navegados __ a mordaça nos olhos, o terror da escuridão é total.  (pág. 15)

Viver é um ato que não premeditei. Brotei das trevas. (pág. 34)

Eu sou um ser privilegiado porque sou a única no mundo. Eu enovelada de eu. (pág. 47)

O milagre é o riquíssimo girassol se explodir de caule, corola e raiz __ e ser apenas uma semente. (pág. 47)

O silêncio não é o vazio, é a plenitude. (pág. 53)

A diferença entre o doido e o não-doido é que não-doido não diz nem faz as coisas que pensa. (pág. 52)

Mentira também é uma verdade, só que sonsa e meio nervosa. (pág. 61)

Frases do livro A paixão segundo G.H

Eu sou mansa mas minha função de viver é feroz. (pág. 112)

Provação: significa que a vida está me provando. Mas provação: significa que eu também estou provando. E provar pode se transformar numa sede cada vez mais insaciável. (pág. 125)

Eu procurava o mais orgíaco de mim mesma. (pág. 123)


Frases do livro Água viva

Quero captar o meu é.  (pág. 10)

Sou um ser concomitante: reúno em mim o tempo passado, o presente e o futuro, o tempo que lateja no tique-taque dos relógios. (pág. 22)

Não é um recado de ideias que te transmito e sim uma instintiva volúpia daquilo que está escondido na natureza e que adivinho. (pág. 24)

O meu principal está sempre escondido. Sou implícita. E quando vou me explicitar perco a úmida intimidade. (pág. 25)

Escrevo-te porque não me entendo. (pág. 28)

Mas a palavra mais importante da língua tem uma única letra: é. É. (pág. 28)

A prece profunda é uma meditação sobre o nada. (pág. 31)

Sou um coração batendo no mundo. (pág. 37)

Que estou fazendo ao te escrever? Estou tentando fotografar o perfume. (pág. 55)

Ah viver é tão desconfortável. Tudo aperta: o corpo exige, o espírito não para, viver parece ter sono e não poder dormir __ viver é incômodo. Não se pode andar nu nem de corpo nem de espírito. (pág. 96)

Tudo acaba mas o que eu te escrevo continua. (pág. 96)

Caminho segurando um guarda-chuva aberto sobre corda tensa. Caminho até o limite do meu sonho grande. (pág. 29)

Não gosto quando pingam lima nas minhas profundezas e fazem com que eu me contorça toda. (pág. 31)

Sou caleidoscópica; fascinam-me as minhas mutações faiscantes eu aqui caleidoscopicamente registro. (pág. 34)

Eis que te faço perguntas e muitas estas serão. Porque sou uma pergunta. (pág. 40)

Estou sentindo o martírio de uma inoportuna sensualidade. De madrugada acordo cheia de frutos. (pág. 39)


Frases de Perto do coração selvagem

...de qualquer luta ou descanso acordarei forte e bela como um cavalo novo. (pág. 202)

O mistério explica mais que a claridade. (pág. 188)

REFERÊNCIAS

LISPECTOR, Clarice. Água viva. 5. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira,1980.

LISPECTOR, Clarice. A paixão segundo G.H. 10. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1986

LISPECTOR, Clarice. Perto do Coração Selvagem. Rio de Janeiro: Rocco, 1998.

LISPECTOR, Clarice. Um sopro de Vida. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1978.

 

POEMAS EM HOMENAGEM À CLARICE LISPECTOR

Ferreira Gullar fez o poema abaixo em homenagem à Clarice Lispector, quando ela faleceu.

Enquanto te enterravam no cemitério judeu
do Caju
(e o clarão de teu olhar soterrado
resistindo ainda)
o táxi corria comigo à borda da Lagoa
na direção de Botafogo
as pedras e as nuvens e as árvores
no vento
mostravam alegremente
que não dependem de nós("Na Vertigem do Dia", do livro "Toda Poesia", de 1980)

Veja o depoimento do poeta:

"Esse poema foi escrito no em dia que Clarice morreu. Estava em casa, me preparando para viajar para São Paulo, quando tocou o telefone, dizendo que ela tinha acabado de morrer. Fiquei chocado porque tinha tentado ir visitá-la no hospital. E ela me mandara um recado para que eu aguardasse e voltasse depois. Achei estranho porque a informação era a de que era duvidoso que ela voltasse para casa, já que seu estado era grave. Pouco depois, recebi a notícia de sua morte. O carro que me pegou para levar ao aeroporto foi pela lagoa Rodrigo de Freitas. Estava um dia lindo: sol e árvores balançando com a brisa. Achei chocante, um contraste. Eu triste com a morte dela e a natureza pouco ligando. (ri) O poema é isto: enquanto morremos, a natureza não tem nada a ver conosco. Ela está na dela."                  

( Revista Bravo; outubro de 2010)

Poema de Carlos Drummond de Andrade para Clarice Lispector:

Visão de Clarice Lispector
 

 

Clarice,
veio de um mistério, partiu para outro.
Ficamos sem saber a essência do mistério.
Ou o mistério não era essencial,
era Clarice viajando nele.
Era Clarice bulindo no fundo mais fundo,
onde a palavra parece encontrar
sua razão de ser, e retratar o homem.
O que Clarice disse, o que Clarice
viveu por nós em forma de história
em forma de sonho de história
em forma de sonho de sonho de história
(no meio havia uma barata
ou um anjo?)
não sabemos repetir nem inventar.
São coisas, são jóias particulares de Clarice
que usamos de empréstimo, ela dona de tudo.
Clarice não foi um lugar-comum,
carteira de identidade, retrato.
De Chirico a pintou? Pois sim.
O mais puro retrato de Clarice
só se pode encontrá-lo atrás da nuvem
que o avião cortou, não se percebe mais.
De Clarice guardamos gestos. Gestos,
tentativas de Clarice sair de Clarice
para ser igual a nós todos
em cortesia, cuidados, providências.
Clarice não saiu, mesmo sorrindo.
Dentro dela
o que havia de salões, escadarias,
tetos fosforescentes, longas estepes,
zimbórios, pontes do Recife em bruma envoltas,
formava um país, o país onde Clarice
vivia, só e ardente, construindo fábulas.
Não podíamos reter Clarice em nosso chão
salpicado de compromissos. Os papéis,
os cumprimentos falavam em agora,
edições, possíveis coquetéis
à beira do abismo.
Levitando acima do abismo Clarice riscava
um sulco rubro e cinza no ar e fascinava.
Fascinava-nos, apenas.
Deixamos para compreendê-la mais tarde.
Mais tarde, um dia... saberemos amar Clarice.


Carlos Drummond de Andrade.

Fonte http://estacaodapalavra.blogspot.com.br/2011/04/frases-clariceanas.html


Publicado por Rosangela Aliberti em 09/09/2013 às 16h52
 
06/09/2013 15h53
Pensamento do dia

O mau que você faz um dia retorna pra você.
O bem que você faz um dia retorna pra você.
Mas não faça o bem esperando algo em troca, o bem só é bem visto e bem aceito quando vem do coração e o mau está dentro da maioria deles. ~ Nãna Prado. 
(Coletânea: Observe & Absorva/Facebook)

Photo: Bernie Boston


Publicado por Rosangela Aliberti em 06/09/2013 às 15h53



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