Rosangela_Aliberti

"Se a Arte tocar em algum ponto do homem é sinal que alcançou seu objetivo" (r_a)

Meu Diário
25/05/2014 00h53
Crônica do Amor NÃO é de Jabor nem de Roberto Freire

Nota: Existe um texto circulando na net com o título de: Crônica do Amor (este vem sendo repassado como se fosse um dos escritos por Arnaldo Jabor e/ou Roberto Freire) a crônica de Martha Medeiros teve toda ordem dos parágrafos trocada... cujo nome é:

As Razões que o Amor Desconhece

Tendo como início este trecho da crônica ...o repassador possivelmente  desconhecia o texto original: (...) Ninguém ama outra pessoa pelas qualidades que ela tem, caso contrário os honestos, simpáticos e não fumantes teriam uma fila de pretendentes batendo a porta. O amor não é chegado a fazer contas, não obedece à razão. O verdadeiro amor acontece por empatia, por magnetismo, por conjunção estelar. (...) mudaram o título ocasionando assim o repasse falso dos créditos.

*

As Razões que o Amor Desconhece

Você é inteligente. Lê livros, revistas e jornais. Gosta de filmes de Woody Allen, do Hal Hartley e do Tarantino, mas sabe que uma boa comédia romântica também tem seu valor.

É bonita. Seu cabelo nasceu para ser sacudido em comercial de xampu e seu corpo tem todas as curvas no lugar. Independente, emprego fixo, bom saldo no banco.

Gosta de viajar, de música, tem loucura por computador e seu fettuccine ao pesto é imbatível. Você tem bom humor não pega no pé de ninguém e adora sexo.

Com um currículo desses, criatura, por que diabo está sem namorado?

Ah, o amor, essa raposa. Quem dera o amor não fosse um sentimento, mas uma equação matemática : eu linda + você inteligente = dois apaixonados.

Não funciona assim. Ninguém ama a outra pessoa pelas qualidades que ela tem, caso contrário os honestos, simpáticos e não-fumantes teriam uma fila de pretendentes batendo-lhes à porta.

O amor não é chegado a fazer contas, não obedece a razão. O verdadeiro amor acontece por empatia, por magnetismo, por conjunção estelar. Costuma ser despertado mais pelas flechas do Cupido que por uma ficha limpa.

Você ama aquele cafajeste. Ele diz que vai ligar e não liga, ele veste o primeiro trapo que encontra no armário, ele adora o Planet Hemp, que você não suporta. Ele não emplaca uma semana nos empregos, está sempre duro e é meio galinha. Ele não tem a menor vocação para príncipe encantado, mas você não consegue despachá-lo. Quando a mão dele toca em sua nuca, você derrete feito manteiga. Ele toca gaita de boca, ele adora animais, ele escreve poemas. Por que você ama esse cara? Não pergunte a mim.

Você ama aquela petulante. Você escreveu dúzias de cartas a que ela não respondeu, você deu flores que ela deixou murchar, você levou-a para conhecer sua mãe e ela foi de blusa transparente. Você gosta de Rock e ela de MPB, você gosta de praia e ela tem alergia a sol, você abomina o Natal e ela detesta o Ano Novo, nem no ódio vocês combinam. Então? Então que ela tem um jeito de sorrir que o deixa imobilizado, o beijo dela é mais viciante que LSD, você adora brigar com ela e ela adora implicar com você. Isso tem nome.

Ninguém ama outra pessoa porque ela é educada, se veste bem e é fã do Caetano. Isso são referências, só. Ama-se pelo cheiro, pelo mistério, pela paz que o outro lhe dá ou pelo tormento que provoca. Ama-se pelo tom de voz, pela maneira que os olhos piscam, pela fragilidade que se revela quando menos se espera. Amar não requer conhecimento prévio nem consulta ao SPC. Ama-se justamente pelo que o Amor tem de indefinível. Honestos existem aos milhares, generosos tem às pencas, bons motoristas e bons pais de família, está assim, ó.

Mas só o seu amor consegue ser do jeito que ele é.

Martha Medeiros (c/ confirmação da própria autora)

Visite a comunidade: Afinal, quem é o autor?

(ilustração: old cards)

 

 


 


Publicado por Rosangela Aliberti em 25/05/2014 às 00h53
 
14/05/2014 00h08
A Síndrome de Pollyana por Juliana Baron Pinheiro

A Síndrome de Pollyanna 

“Poliana era uma mulher que estava sempre muito feliz.

Acordou naquela quarta feira e como de costume, sorriu em frente ao espelho. Levantou o pijama, conferiu o resultado da última dieta refletido na barriga “quase negativa”, como ela gostava de frisar. Puxou o celular e pensou em tirar uma foto pra mostrar pras amigas, mas sua cara não estava das melhores. Então, desistiu e o guardou num bolsinho que tinha na blusa do seu pijama.

Ainda antes de tomar seu café, abriu o computador para dar uma olhada nas suas redes sociais. Começou pelo Facebook, aonde atualizou as notificações, curtiu as fotos de alguns amigos e compartilhou uma mensagem positiva, como de costume. Aliás, adorava lê-las e imaginar que podia ajudar alguém com aquele compartilhamento. Existem muitas pessoas tristes e negativas nesse mundo, pensou Poliana, e era sua função mostrar à elas o quanto é melhor nos sentirmos felizes e encararmos o lado bom de tudo que acontece conosco.

Depois do Facebook, sacou seu celular e deu uma conferida no Instagram. “Uau, eu sou demais”, pensou Poliana quando apareceram ali 30 coraçõezinhos de curtidas na última foto que postou ontem antes de dormir. Rolou com o dedo no feed e a cada foto que ia aparecendo de quem ela seguia, mentalmente, Poliana ia fazendo os seus julgamentos. Claro, sempre positivos, porque ela era uma pessoa muito “do bem” e muito bem resolvida. Depois, decidiu checar seu email e quando abriu sua caixa de entrada, gelou ao rever o email de uma cobradora que vinha lhe procurando pra cobrar uma conta não paga de uma loja de departamento. Ela engoliu em seco aquela sensação ruim e por um segundo, sentiu-se mal por estar naquela situação. Já fazia alguns meses que estava no vermelho, economizando cada centavo, mas precisou comprar uma roupa para uma festa “top” que teve na sua cidade. O ingresso conseguiu de um amigo, assim como os sapatos e os brincos, que pegou emprestados da sua amigona. Mas a roupa precisava ser nova! Enfim, ela ia dar um jeito naquilo, como SEMPRE fazia. Não seria uma cobrança financeira que iria lhe abalar. Afinal, Poliana já enfrentou tantas situações ruins na sua vida e uma dívida não a faria baixar a cabeça.

Naquele dia, Poliana ia trabalhar como free num evento de Medicina. Então, fechou o computador, colocou uma música animada no som e foi escolher uma roupa. Nossa, como Poliana era uma pessoa divertida, sempre diziam alguns amigos. Está sempre sorrindo, mesmo imersa em problemas seríssimos. Indo para o quarto, ela parou em frente ao espelho que ficava posicionado estrategicamente no corredor, espiou mais uma vez a sua barriga e ficou feliz ao concluir que a sua determinação em perder três quilos numa semana, tinha dado certo. Dançou em comemoração e sem querer, derrubou seu Iphone no chão e por causa da queda a tela da frente trincou. “Que merda”, exclamou Poliana. Já era o terceiro celular em seis meses e esse ainda tinha sido um presente da sua madrinha! Mas tudo bem, o aparelho ainda estava funcionando e ela não queria pensar em como arranjar dinheiro para o conserto naquele momento. O dia estava lindo, ela estava viva, a vida era é bela, então tudo bem!

Saindo de casa, Poliana recebeu uma ligação. Era sua advogada, que queria lhe informar que o processo que ela abriu contra a ex-namorada do seu pai, por conta do furto de algumas joias que eram da sua mãe, não tinha muita chance de obter um bom resultado. Porque Poliana não tinha muitas provas do furto e como sua mãe, que era a verdadeira dona dos bens, não quis participar do processo, o juiz pensava em extingui-lo. A advogada insistiu então, que Poliana tentasse convencer sua mãe, mais uma vez, a colaborar. Mas ela repetiu que a relação das duas não era das melhores e que ela já tinha desistido dessa hipótese.

O telefonema foi encerrado sem nenhuma solução e Poliana abriu a janela do carro, porque o ar condicionado do carro não estava funcionando. Ligou o som e ficou feliz em escutar uma das suas músicas preferidas. Sorriu e cantou em voz alta, com os cabelos ao vento:

- É melhor ser alegre que ser triste, a alegria é a melhor coisa que existe…

Sim, aquele era seu lema de vida. Poliana não se permitia um segundo de tristeza, um segundo de reflexão, para repensar os seus passos, as suas crenças, as suas atitudes e se a sua felicidade era mesmo verdadeira ou uma fuga. Ela não tinha tempo para isso. Talvez, nem coragem.

Então, o telefone tocou mais uma vez. Dessa vez era seu namorado. Poliana atendeu com aquela voz doce, típica de quem fala com o amor da sua vida. Beto, que não estava igualmente feliz como ela, relembrou a namorada o que tinha acontecido na noite passada. Num jantar com o pessoal do trabalho dele, Poliana bebeu demais e mais uma vez, constrangeu Beto contando piadas obscenas para os seus colegas. Realmente a bebida sempre fazia com que ela ultrapassasse qualquer limite do bom senso, mas como esse excesso vinha envolvido em brincadeiras e piadas engraçadas, nem sempre Poliana se dava conta do mal que estava causando a si mesma. Todos os finais de semana.

Beto lembrou também que ao deixar ela em casa, ficou preocupado, porque Poliana desandou a chorar e a reclamar de tudo de ruim que acontecia com ela. Nunca tinha visto ela assim e queria entender o que desencadeou aquele desespero. “Ai Beto, eu só estava bêbada!”, justificou rindo. Mas ele insistia em afirmar que o desabafo tinha um tom de verdade e que quem sabe era a hora de Poliana procurar ajudar, quem sabe fazer uma terapia. Mesmo com pouco tempo de namoro, ele sabia de todos os seus problemas familiares, dos seus tramas e das suas insatisfações. Mas ela rebateu o conselho prontamente: “Nada a ver, eu me sinto muito feliz. Tudo isso é passado. Já superei e hoje sou outra pessoa. O que vem acontecendo com certeza é coisa de olho gordo. Tem muita gente invejando minha felicidade por aí, Beto. Mas já comprei um olho grego, ontem tomei um passe no centro espírita que uma amiga frequenta e nesse final de semana vou com a Joana num Centro Budista”. O namorado riu da animação de Poliana e encerrou o assunto. Sabia que essa muralha que ela construiu pra se esconder da realidade era quase instransponível. E eles se davam bem, Poliana era bonita, gostosa, engraçada e de boa convivência. Então, não seria ele quem iria querer acabar com a sua felicidade ao lhe mostrar o que de verdade se passava com a sua vida.

Eles desligaram o telefone depois de combinarem de se encontrar à noite, quando fariam um jantarzinho com vinho, que provavelmente ia ser objeto de alguma postagem de Poliana nas suas redes sociais. Aliás, as redes eram ótimas ferramentas para que ela afirmasse à si mesma e aos outros o quanto era feliz!.

.............

Quem conhece, já foi ou ainda se considera uma Pollyanna (no livro o nome da personagem é escrito assim, mas eu quis “abrasileirar”?.

Semana que vem, falo mais sobre isso. Só quis demonstrar através dessa história que criei de uma personagem “fictícia”, o quanto as Pollyannas existem e como muitas vezes são confundidas com pessoas que simplesmente são guerreiras, positivas, alegres….

Já adianto que a minha ideia não é criticar ou julgar ninguém. Ser feliz, positivo, alegre é muito bom. Sorrir, procurar ver o lado bom de tudo, não é um problema! Mas é preciso ter muito cuidado com o excesso de ilusões que se cria a cerca da nossa realidade.

Quem se interessar, procura no Google sobre essa “síndrome”.

Juliana Baron Pinheiro

Fonte: http://blogpsicologando.com/2013/08/02/a-sindrome-de-pollyanna/

Um dos comentários no blog me chamou atenção e aqui transcrevo: Alexandre Valério Ferreira - fevereiro 17, 2014
Gostei muito do texto. Ao utilizar um exemplo prático, digamos assim, você conseguiu mostrar como não é sensato ser o tempo todo “positivo”. A síndrome de polyanna é um escapismo, uma fuga dos problemas, uma forma de se enganar. E o que me dá mais raiva, acho que a você também, é quando alguns utilizam a psicologia polyanna nos outros. Por exemplo, falamos dos nossos problemas p alguem e a pessoa rebate dizendo que “é só isso…”, “veja o lado bom,…”. Nem sempre isso é o melhor consolo, ás vezes, dá a impressão de que o problema é simples e nós que somos fracos. Parabéns pelo texto e pelo seu blog!

(imagem: Pinterest)

 

Publicado por Rosangela Aliberti em 14/05/2014 às 00h08
 
13/05/2014 01h03
Clarice Lispector

Atenção estes trechos são fragmentos
...do livro A Paixão Segundo GH:

Pois em mim mesma eu vi como é o inferno...(...) p. 143 (...) E porque minha alma é tão ilimitada que já não sou eu, e porque ela está tão além de mim - é que sempre sou remota a mim mesma, sou-me inalcançável como me é inalcançável um astro... (...) p. 146 (...) O mistério do destino humano é que somos fatais, mas temos a liberdade de cumprir ou não o nosso fatal: de nós depende realizarmos o nosso destino fatal... (...) mas de mim depende eu vir a ser o que fatalmente sou... p.148 (...) E não preciso sequer cuidar da minha alma, ela cuidará fatalmente de mim, e não tenho que fazer para mim mesma uma alma: tenho apenas que escolher viver. Somos livres, e este é o inferno. p. 148

Clarice Lispector
In: A Paixão Segundo GH
5 ed. Rio de Janeiro
J. Oliympio 1977
páginas diversas

*

Nota: Enviado por e-mail, provavelmente recolhido de algum blog(ue), estava na forma de poesia, mas não é um poema.

*

Favor quem realmente tiver gosto pela Literatura, CITAR a fonte. 

Foto Galeria de Vi 
- Flickr

 


Publicado por Rosangela Aliberti em 13/05/2014 às 01h03
 
09/05/2014 00h12
O Caso Elizabeth Thomas


"Atualmente Elizabeth Thomas é uma mulher mentalmente saudável."

Quando pequena e com rosto angelical mas com palavras que assustam muita gente! Você vai conhecer a mente de uma criança psicopata que anseia matar o irmão e a seus próprios pais a sangue frio. Essa entrevista mostra os efeitos do abuso sexual na mente de uma criança! A mãe dela morreu e a deixou com o pai e o irmão mais novo quando ela tinha apenas 1 ano.
Foi tocada pelo pai até sangrar e logo depois levada para adoção por assistentes sociais.Ela começou a molestar seu irmão e o furava com agulhas, assim como animais, matou pássaros e os pais têm que manter ela trancada em um quarto longe do irmão e do alcance deles!Em Abril de 1989, Beth foi encaminhada para uma casa especializada em cuidar de crianças com desordem emocional, sendo diagnosticada com Transtorno de Apego Reativo. O TRANSTORNO DE APEGO REATIVO é um grave distúrbio psicológico e afeta crianças e bebês. A característica essencial do Transtorno de Apego Reativo é uma ligação social acentuadamente perturbada e inadequada ao nível de desenvolvimento na maioria dos contextos, com início antes dos cinco anos de idade e associada ao recebimento de cuidados amplamente patológicos.

A condição de Beth envolve a completa incapacidade de se relacionar com qualquer ser humano e/ou criar laços de afeto, incapacidade de sentir ou receber amor, além de uma completa falta de empatia, uma vez que ela era capaz de ferir ou matar outros seres vivos sem ressentimentos.Se tornou enfermeira na Unidade de Terapia Intensiva Neonatal e trabalha cuidando de minúsculos bebês frágeis. Ela escreveu um livro, “More than a Thread of Hope” e, junto com sua mãe adotiva, Nancy Thomas, criou uma clínica para crianças com distúrbios graves de comportamento. Sua vida de sobrevivência e vitória traz esperança e compreensão para pais e profissionais, trabalhando para curar a criança afetada e, acima de tudo, capacitar os pais com uma visão positiva para o futuro do seu filho.

(na foto: Beth Thomas)

A ira de um anjo
http://www.youtube.com/watch?v=8Bp-cgUQpbk#t=1590

http://psicologia-forense.blogspot.com.br/2012/11/caso-beth-thomas-documentario.html

http://en.wikipedia.org/wiki/Child_of_Rage


Publicado por Rosangela Aliberti em 09/05/2014 às 00h12
 
08/05/2014 18h00
Pálpebras de Neblina - Caio Fernando Abreu

Obs: Favor NÃO repassar como se fosse de Clarice Lispector!

PÁLPEBRAS DE NEBLINA

Texto tristíssimo, paraser lido ao som de Giulietta Masina, de CaetanoVeloso.Fim de tarde. Dia banal, terça, quarta-feira. Eu estava me sentindo muito triste. Você pode dizer que isso tem sido freqüente demais, até mesmo um pouco (ou muito) chato. Mas, que se há de fazer, se eue stava mesmo muito triste? Tristeza-garoa, fininha, cortante,persistente, com alguns relâmpagos de catástrofe futura. Projeções: e amanhã, e depois? e trabalho, amor, moradia? o que vai acontecer?Típico pensamento-nada-a-ver: sossega, o que vai acontecera contecerá. Relaxa, baby, e flui: barquinho na correnteza, Deus dará.Essas coisas meio piegas, meio burras, eu vinha pensando naquele dia.Resolvi andar.Andar e olhar. Sem pensar, só olhar: caras, fachadas, vitrinas,automóveis, nuvens, anjos bandidos, fadas piradas, descargas de monóxido de carbono. Da Praça Roosevelt, fui subindo pela Augusta,enquanto lembrava uns versos de Cecília Meireles, dos Cântico: “Nãodigas: ‘Eu sofro’. Que é que dentro de ti és tu?/ Que foi que teensinaram/ que era sofrer?” Mas não conseguia parar. Surdo a qualquer zen-budismo o coração doía sintonizado com o espinho. Melodrama:nem amor, nem trabalho, nem família, quem sabe nem moradia —coração achando feio o não-ter. Abandono de fera ferida, bolero radical.Última das criaturas, surto de lucidez impiedosa da Big Loira de Dorothy Parker. Disfarçado, comecei a chorar. Troquei os óculos de lentes claras pelos negros ray-ban — filme. Resplandecente de infelicidade, eu subiaa Rua Augusta no fim de tarde do dia tão idiota que parecia não acabarnunca. Ah! como eu precisava tanto que alguém me salvasse do pecadode querer abrir o gás. Foi então que a vi.Estava encostada na porta de um bar. Um bar brega — aqueles da Augusta-cidade, não Augusta-Jardins. Uma prostituta, isso era o mais visível nela. Cabelo mal pintado, cara muito maquiada, minissaia, decote
fundo. Explícita, nada sutil, puro lugar-comum patético. Em pé, decostas para o bar, encostada na porta, ela olhava a rua. Na mão direita tinha um cigarro; na esquerda, um copo de cerveja. E chorava, elachorava. Sem escândalo, sem gemidos nem soluços, a prostituta nafrente do bar chorava devagar, de verdade. A tinta da cara escorria comas lágrimas. Meio palhaça, chorava olhando a rua. Vez em quando, dava uma tragada no cigarro, um gole na cerveja. E continuava a chorar —exposta, imoral, escandalosa — sem se importar que a vissem sofrendo.Eu vi. Ela não me viu. Não via ninguém, acho. Tão voltada para suaprópria dor que estava, também, meio cega. Via pra dentro: charco,arame farpado, grades. Ninguém parou. Eu, também, não. Não era um espetáculo imperdível, não era uma dor reluzente de neon, não estava enquadrada ou decupada. Era uma dor sujinha como lençol usado porum mês, sem lavar, pobrinha como buraco na sola do sapato. Furo na meia, dente cariado. Dor sem glamour, de gente habitando aquela camada casca-grossa da vida. Sem o recurso dessas benditas levezas nossas de cada dia — uma dúzia de rosas, uma música de Caetano, urnac aixa de figos.Comecei a emergir. Comparada à dor dela, que ridícula a minha ,de brasileiro-médio-privilegiado. Fui caminhando, mais leve. Mas sóquando cheguei à Paulista compreendi um pouco mais. Aquela prostituta chorando, além de eu mesmo, era também o Brasil. Brasil 87:explorado, humilhado, pobre, escroto, vulgar, maltratado, abandonado, sem um tostão, cheio de dívidas, solidão, doença e medo. Cerveja e cigarro na porta do boteco vagabundo: Carnaval, futebol. E lágrimas.Quem consola aquela prostituta? Quem me consola? Quem consola você, que me lê agora e talvez sinta coisas semelhantes? Quem consola este país tristíssimo? Vim pra casa humilde. Depois, um amigo me chamou para ajudá-lo a cuidar da dor dele. Guardei a minha no bolso. E fui. Não por nobreza:cuidar dele faria com que eu esquecesse de mim. E fez. Quando gemeu “dói tanto”, contei da moça vadia sozinha chorando, bebendo e fumando (como num bolero). E quando ele perguntou “por quê?”, compreendi ainda mais. Falei: “Porque é daí que nascem as canções”. E senti um amor imenso. Por tudo, sem pedir nada de volta. Não ter pode ser bonito, descobri. Mas pergunto inseguro, assustado: a que será que se destina?

Caio Fernando Abreu, in: Pequenas Epifanias
O Estado de S. Paulo, 18/11/1987

Tira-teima:http://pt.scribd.com/doc/66837089/Caio-Fernando-Abreu-Pequenas-Epifanias-PDF-Rev

 

 


Publicado por Rosangela Aliberti em 08/05/2014 às 18h00



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