Rosangela_Aliberti

"Se a Arte tocar em algum ponto do homem é sinal que alcançou seu objetivo" (r_a)

Textos


Carta
“Ao meu Querido Mentor”

- No tédio um ser patético, se morde de raiva ou faz cara de sorriso aguado na hora da sessão coruja...

- Queres respostas? Para que? Para determinar correntes e sentidos das resistências nas “Figuras”? Ó criatura “nonsense ingrata” entre as leituras após Petrarca, se tu achas que nunca serás “ilustre dentro da tua pequenez”, por que insistis no métier*? Se não sabes tirar leite de pedra talvez seja porque tu contas as sílabas com os dedos parados... falta sonoridade mental, falta apreensão da concepção das rimas internas e externas, faltam idéias? Falta até a falta? Então por que nunca jogas a toalha no chão...?

- Querido mentor, o branco da folha suspira nesta triste busca anônima da arte filosófica e poética, não consigo me concentrar as ruas estão cheias de rimas fortes, estas parecem que dançam bem na minha frente... diante dos teus olhos que zombam das minhas frustrações. Se não é nada fácil escrever marchinhas, quanto mais entrar “numas” de versos de Petrarca, no entanto tudo que cai no interior de um mesmo ritmo, morre batendo sempre na mesma tecla.

- Tu não te concentras porque vive borboleteando na paisagem, heranças não são conquistadas de mãos beijadas devem ser concedidas a seres com certo talento... tesouros, não são distribuídos a toa, cada qual tem que suar a camisa para conquistar vossos próprios louros. Não compreendi o “anônima”? Não entendi o que a tua pseudo-filosofia tem a ver com poesia? Pensas que tenho dó de ti? Por que tu não paras de reclamar e trabalha? A construção de poemas também requer serviços de carpintaria.

- Escuta aqui, você é o super ego ou é o meu mentor? Estava chovendo e eu ouvi um samba num toldo como se o mundo estivesse caindo numa panela e esta se transformasse em batidas em uma bateria e até agora não encontrei uma palavra sequer para iniciar um soneto... que cargas d’água aqueles pingos estavam fazendo...? Meus ouvidos ainda estão doendo como se pingos estivessem se entranhando numa tomada. Estou entrando em curto, em parafuso, ó raios! (tal qual os neurônios sem sentido que se encontram perturbados diante das conjunções sonoras dos significantes... S.O.S soam como um grito de súplica para seres que caminham metrificando...?)

- Se brinco contigo não posso ser seu super ego; corretos, são todos aqueles que se mantêm tranquilos ao notarem um quê na ausência de inspiração. Procures relaxar! Não vês que para construir um soneto, tu precisas se fixar em um ponto aqui noutro acolá, como se estivesses se preparando para  descer em alguma estação de trem.

- Óoo di-fi-CUL-da-de, por que não psicografo sonetos!?! Acho que não deve ter nenhum espírito de plantão querendo uma pupila, ou seja não deve existir nenhum plantonista de CVV moribundo que queira ou possa me ajudar.

- “Criança”, tu és patética, sempre a procura de fórmulas mágicas...

- Se não ouço nada do que quero, acho que ninguém está por aqui, logo não se fazem mais mestres como antigamente (tsc... tsc)

- Se tu não ouves, estás resmungando com quem? Com o teu alter ego? O que não queres, é ouvir as verdades.

- Acho que ouvi... ouvi! um: - TE VIRA SOZINHA “SANTA”! Você é um mentor ou é algum verdugo?

- Cada qual tem o mentor que merece, e fiques sabendo que para acompanhar certas pessoas tem que haver um revezamento... bem–aventurados, os professores pacientes e os "sonetistas destrambelhados vivos", para os que conseguirem alcançar algum “quase” um dia chegarão lá.

- Lá onde?

- No topo da escada de Jacó, sozinhos.

- Não sei ao certo se você me dá calafrios brrrr... ou ataque de risos.

- Ah... ah! Bebê, nasce redondo? Sem trabalho não se atinge o ponto A-Bê-Bê-A... e os Cê-Dê-Es não caem das nuvens e mesmo assim será que consegues ver a luz no caos?

- No caos: no fundo do cárcere tem um copo de veneno ou o copo seria a luz no fundo do cárcere???

- Teu sonho é encontrar cadências harmônicas antes de abrir alguma válvula de gás e ir parar no plano daqui, por isto ouças a minha voz... é necessário observar quaisquer chispas a distância... para que inventar uma cadeira elétrica? Para que tu desejas te transformares em pó antes do tempo? Tu não verás nada de tão interessante se estiveres fora da carne, no entanto repara:
 
VIII
 
Ó Pai, depois dos dias ociosos, (A)
Depois das noites a velar em vão, (B)
Com este anseio no meu coração, (B)
Mirando os atos por meu mal viçosos (A)
 
Praza-te, ó lume, que a outros mais formosos (A)
Caminhos e a mais bela ocupação (B)
Eu me volte, fugindo à dura ação (B)
Do inimigo e aos seus meios cavilosos.(A)
 
Dez anos mais um hoje faz, Senhor,(C)
Que me vi submetido à tirania (D)
Que sobre o mais sujeito é mais feroz.(E)
 
Piedade tem do meu não digno ardor (C)
Conduz meu pensamento a melhor via, (D)
Lembra-o de que estiveste numa cruz. (F)

Petrarca (...por acaso ali bem que podia ter um fim apoteótico... se (éfe) ainda está por lá, o resultado do “problema” é a cruz!!!)

- Qual a intensidade da corrente que circula no circuito?

- Caríssima, sejas realista é mais fácil considerar o andamento de um circuito no encontro do valor final de uma amperagem da resistência... do resistor equivalente a um trecho AB do que experimentares escrever uma boa estrofe? Tua de preferência, sem interferências, ou pensas que Vinicius de Moraes irá soprar algum verso em teu ouvido?!

- Bem que podia, mas ele deve estar ocupado... compondo com Tom Jobim e voltando ao ponto de vista do dedo no buraco da tomada: qual é a resistência de uma ovelha negra num covil? Existe uma roleta russa no céu?! Fui premiada (risos)

- Cínica, que despreza(va) as fórmulas e conveniências sociais... quantos uivos de uma alcatéia de lobos na escuridão é páreo para a Claridade?
Tu não és nenhuma tola, andamos desobstruindo o que estava “entupido” no que diz respeito ao teu campo de penetração auditivo, porque tu és por demais visual... recordar é viver: “Estava a toa na vida e meu amor me cha/mou - prá ver a banda passar...”
 
- O que se faz para apaziguar o ego?

- Têm certas coisas que saberemos que existem no tempo certo, tu compreenderás quando puderes porque certas letras insistem em andar por aí (tsc... tsc), tu não és tão poalha quanto pensas... assim como nós somos e seremos sempre centelhas vivas. "Parte de..." minha cara, centelhas...

- “...contando HISTÓ/RIAS DE AMOR...?”

Nota: métier* do francês = profissão.

Rosangela_Aliberti
São Paulo, 04.XI.08
(arte de origem desconhecida)

 

 

Rosangela Aliberti
Enviado por Rosangela Aliberti em 14/11/2008
Alterado em 25/12/2008


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