Rosangela_Aliberti

"Se a Arte tocar em algum ponto do homem é sinal que alcançou seu objetivo" (r_a)

Textos


CARTA A UM JOVEM LEITOR

Caro jovem escritor

Sei que você é bem mais jovem do que eu, (no que diz respeito a idade), mas experiências de vida não se mensuram, o que é ser jovem? O tempo com sabedoria vai demonstrando como: carregamos, recebemos, reconhecemos, compreendendo levamos as rugas... alguns toleram, outros escondem, outros retiram na ponta do bisturi, por não tolerá-las face a face de algum modo, outros pouco se incomodam... sabe por que?
- Cada qual tem as SUAS rugas.

Li alguns seus trabalhos e a seguir lhe disse: - No meu parecer está ´muito bom´. Sua resposta: - Pô só isto?! Eu me ´mato´ para criar e você diz que está apenas... ´muito bom´???
Sorte você ouvir um 'muito bom', Velhinho' (imitando a voz do dublador do Pernalonga) de alguém... melhor do que nada, observe o número de textinhos escritos de muitos por aí... nem todos fazem algum comentário
ou referência, depois: - Quem sou eu... para tecer mais algum comentário? Sinceramente? Gostaria que você continuasse se ´matando´ acreditando de todo coração que você seja capaz; se eu nada lhe dissesse, aí seria algo preocupante (ao meu ver), há determinados tipos de pessoas que observam e não tendo nada a acrescentar ou contribuir se calam... cada qual instiga a propulsão do motor a sua maneira, nem tudo que se lê dá ´liga´para um determinado escritor/leitor que se dispõe a rabiscar, contudo, isto não quer dizer que não dê para: um + um + um... enfim...!!!

Outro dia me questionaram o que eu achava de determinado autor brasileiro em voga na atualidade que tem seus escritos espalhados por todo planeta...
- Creio que ele sabe muito mais do que a grande maioria pensa... no entanto, escreve para a camada geral que tem facilidade em captar o que está dentro desta faixa (vibratória), ou seja cada qual busca aquilo que necessita... o que lhe satisfaz no momento ou seja: se ele é um Sucesso, certamente tinha este objetivo bem demarcado há anos atrás, a população o colocou na posição em que está hoje, quem era este autor em 1963...? Será que todos os que sabem seu nome hoje reconheceriam seu nome e seu valor naquela época?! O ´camarada´ deveria ter uns dezoito anos... com dezoito anos aonde ele se visualizava em 2005...!?!

Existem escritores melhores do que ele para mim, para você?
- Claro que pode haver. Vence a maioria. Onde fica o sentido de respeito e admiração? E o estímulo em ver alguém em uma posição tão ´cobiçada´?

Há editores que lêem nossos escritos e apesar destes nos provocarem um ´frenesi´ ao serem gerados será que são considerados bons, a ponto de serem repassados para pessoas que pensam como ou diferente de nós?
Como se fosse o BOOM ocasionado ao verificar o despentear dos cabelos soltos dos capins-cheirosos ao vento sem estarmos na onda da primavera, nenhuma de nossas letras dizem absolutamente N A D A para o tal editor. Resultado: ele engaveta nossos escritos, o olho mágico não brilhou (tendendo a ficar embaçado... nada ocorreu), calou fundo seu ´feeling´ ele irá preferir quem sabe o texto do(a) vizinho(a) considerado por você ´comum...´ isto terá o poder de desencadear um certo desmoronamento no seu ego ´jovem´ escritor? Se isto ocorrer: - VOCÊ lhe deu este ´PODER´!

Quando lemos algo... funciona como tocar na pele do outro, alguns começam de forma afoita, outros provocam o visual, o que desperta a atenção são os caminhos da mente (as preliminares), você nunca saberá se dará ou não ´tesão´somente se experimentar: se com o primeiro editor a química não bater, haverá o segundo, um terceiro... (pensando numa progressão geométrica) com a mentalidade ´erótica´ a matemática também se diverte.

Assim caro amigo... é parte da vidinha do escritores que buscam um lugar ao sol sem pistolão, daquele quem tem por gosto escrever algumas linhas e passá-las adiante: está no sangue , com uma das frases de Thiago Mello:
‘ o poeta já nasce, não se faz, nem se fabrica, se lapida’.
Palavras choram em um dia da semana, se calam ´para sempre´ em uma ou outra lápide, depois podem reencontrar algum eco de um instante para o outro... como um rufar de trovões... desabam a tarde entristecidas enquanto o sol se põe e vão parar observando a lua: o difícil tromba nas trombadas das dificuldades e hajam trombas d´água!!! (de elefantes quando empacam e cismam em não sair do lugar), todos tem seus momentos aguardando o pote de ouro no final do arco-íris... aguardando minutos, horas, meses... quem escreve gosta de ser lido (óbvio). 

Enquanto isto alguns admiradores da língua portuguesa politicamente corretos, caçam os escrevinhadores de ´ecos´: ´apenas nas prosas, a rima em prosa é cabível dizem que se constitui, um defeito quando o texto não é uma prosa literária... (definição de ecos) ´politicamente correta´.

Pobre é o jovem escritor que pensa que ao atingir uma pequenina camada da população imagina ter alcançado algum píncaro, pobre, é aquele que não deseja enxergar suas limitações porque não se aprimora bate sempre na mesma tecla do piano... fica apenas ´no tal do Bife´; pode até ter entrado em contato com uma ou outra estrelinha, enquanto não vê que o céu está lotado contendo ´zilhões´ delas, (muito embora é melhor ter uma estrela na mão do que ficar c o b i ç a n d o o céu do outro), o que pode estar marcado hoje por aqui talvez não seja interessante mas quem sabe amanhã não desperte alguma atenção?
Contudo, há escritores que se consideram como um ser lunático: garimpador de novas formas, briga consigo mesmo, peneira aqui acolá... corre como os espermatozóides entre as linhas dos próprios versos, se debate com os alheios, não dá o braço a torcer, finge que concorda discordando, faz de conta que não leu ou não apreciou nada do que o outro escreveu, (sinal que é crítico demais consigo mesmo...), nada tem a ver (desdém), ou que tem isso ou aquilo de melhor (competitivo por demais), mas continua procurando vender seu peixe...
Quer saber? Você pode fazer de tudo um pouco. Menos perder a visão e razão. Não pare. Nunca deixe de estudar, veja bem, mesmo os que afirmam que são especialistas em sonetos; ´experts´ em haicais; bons em mil e uma traduções tem suas dúvidas... revisam seus textos esbarrando nas linhas da vida como aqueles que ´arrotam´ mortadela fazendo com que os outros pensem que comem caviar todos os dias, alguns permanecem se contorção procurando figuras de linguagem na tentativa de fornecer alguma nova luz na construção da metalinguagem; outros (re)inventam
(in)verdades com tanta ênfase que iludem a si mesmos e o pior (ou melhor) convencem os que estão por perto, desconfio dos que se acham ´técnicos´ disto ou daquilo...! Um professor sempre aprende com seus alunos, os alunos não estão presos a regras e normas gramaticais, pois ainda não tem tal domínio. A lei da seleção natural vai ceifando os que se mantém flexíveis nesta jornada, pois somente os mais fortes encontrarão o calor e a segurança do óvulo... No combate diário se os frutos nascerão defeituosos ou dentro do esperado na perfeição relativa neste nosso ´globinho...´ pouco importa... alguns chegarão lá experimentando caminhos com suas crônicas, seus textos de auto-ajuda, seus poemas repletos da sensualidade (que lhes é própria), para fisgar os leitores, o autor entra na camada ´geral´, enquanto alguns sofrem com os retornos construindo verdadeiras novelas que se assemelham aos dramas dentro da falta de bom senso, pois todo escritor que se preze deve dividir o espaço com a lua mantendo os dois pés firmes no chão, o olho no humor (interno) para não parar na ´cucuia´do imaginário, todo escritor é um sonhador de marca maior e DELIRA como ninguém...! Pois tem que acreditar que seus sonhos darão luzes ao que falta na realidade ou encontrará ressonância na ausência da fantasia de outro alguém.

Se for para matar, que você continue se matando:
- QUERO QUE VOCÊ SE MATE!!! De tanto escrever... pode esbanjar pedidos de socorro, cartas de ódio e amor, cutucar, instigar, aprenda com os outros, diga que pode escrever de tudo (as pessoas irão separar o que interessa ou ´jogar´ o que não consideram interessante na lata do lixo),
enrole o tempo nas filas de espera: escreva... treine, sassarique com as letrinhas... está lhe fazendo bem!?!
Quanto a morte que seja louvada no papel! Desloque, com o sem Freud... use mil e um artifícios para prender o maior leitor que em primeiro lugar:
- É você, mesmo!

O óbvio do óbvio é um sinal: por mais que você saiba alguma coisa, você NUNCA terá domínio de TUDO e por mais que outro alguém saiba mais do que você... saiba que este saber será sempre aparente, o saber não dá pano para comparações, no máximo ocasiona espanto.

Meu abraço, está mais para os de panda... para combinar com o símbolo da Ecologia (Preserve a Vida e Deixe Viver) você foi mais um anjo que caiu do céu... obrigada por ter me acompanhado nestas linhas leitor estou agradecendo a um jovem escritor e amigo (tão jovem quanto eu...) que hoje me escreveu.

São Paulo, 17.V.05
Fotografia da lápide:
Desconheço a fonte,
(escritor = Schreiber
do alemão) 
Rosangela Aliberti
Enviado por Rosangela Aliberti em 17/05/2005
Alterado em 14/01/2007


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