Rosangela_Aliberti

"Se a Arte tocar em algum ponto do homem é sinal que alcançou seu objetivo" (r_a)

Textos


RECEITA DE BOLO

Em um sarau se pode ver um pouco de tudo, se pode ver 'um tudo de um pouco, em sarau'... pessoas aguardavam as poesias de um determinado poeta homenageado, como quem espera a pré-estréia de um filme.

Eis que surge um bardo e começa a declamar um poema da sua própria autoria... a princípio até que tudo parecia ‘normal”, mas normal seria se
 ao menos a poesia fosse dedicada ao poeta em destaque... ou se o 
sujeito não fosse uma espécie do que eu passei a chamar de: “Astolfo Adamastor Parreira” (até uma certa parte de um dos Contos: O CASO E
UM SUJEITO SEM SOBRENOME*), vejam como as coisas por aqui também podem se tornar cíclicas... Este tipo de “Pessoa” não se vê nas de festas
de final de ano nas escolas: Se o aniversário é de Jesus, por que teríamos que bater palmas para Lúcifer? Para se aprender a lidar com a náusea, que às vezes é de cortar o coração. Algumas palavras parecem estar perdidas como se estivessem sido recém-saídas de algum pesadelo no entanto o todo não pode ser descartado, exemplo:
A bola cor-de-rosa era da Sofia/eu... blá vivo blá.../o cachorro entrou na porta da sacristia/eu... (esqueci)/a parede é fria como o gelo/eu blá molho blá blá/ o olho da vizinha era enlouquecedor/eu blá estou blá blá...
Tudo bem com a falta de conexão entre uma frase ou outra, é nestas horas que se pode testar a Tolerância, é no estar que se ouve as diferenças entre uma poesia de um sujeito e de outro autor e os caminhos de seu estado de espírito.

Já li poemas de presos políticos, mais de um ex-preso político já recitou seus novos poemas pelo telefone prá mim... já li poesias de pessoas que saíram de tratamentos de eletrochoques e deduzo que uma pessoa que saiu de um sanatório pode apresentar uma seqüência de versos até mais suave em termos de elaboração do que alguém que nunca passou por
um processo de ‘terapia selvagem’; porém o que mais assusta é quando
o sujeito que aparentemente é considerado são não quer ver que está 
navegando na ilusão, e que tem que chegar em alguma reta final. 

Leu Jorge Amado e não encontra absolutamente NADA de bom naquele autor, leu o senhor Paulo Coelho e diz que os livros dele são fruto de um 
processo de puro ‘marketing’. "Se lemos algo com dificuldade o autor fracassou" segundo nada mais, nada menos que Jorge Luis Borges. Neste nada, se não encontro NADA de bom é A faca, A foice, O reflexo da morte rodando... por isto faço questão de bancar a advogada de incertos diabos: - Será que as pessoas sabem ler que outras conseguem retirar algo de bom e necessário naquele momento?

Em tudo o que se lê com um pé atrás, se vê apenas o nome do ‘eu queria estar naquele lugar ou não naquele lugar'... eu queria estar em uma posição a qual não estou no momento: eu preciso ou não disto!
Captou? É como se alguém gostaria de ser homenageado, mas as velinhas do bolo serão assopradas pelo aniversariante. E por sinal o 
poeta em questão 'ARRASOU', o sarau foi um sucesso, tivemos a possibilidade de sair de lá em um estado de overdose saudável. Por que? Era o momento daquela pessoa e este deve ser considerado e respeitado.

...

Quando estava fora do país depois de passar horas e horas ouvindo uma Babel de letrinhas, quaisquer frases lidas ou ouvidas no idioma mãe eram fascinantes... as letras podiam ser de Amado, de Coelho: ‘eram as nossas palavras’, não eram as suas, nem a de nenhum outro... com o tempo se aprende a ver aquilo que talvez fosse antes considerado por nós mesmos como ‘natural’, o que pode ser elementar para alguns é OURO para uns e outros. Assim o "lixo" pode virar um luxo!

Um salto para o nosso mundo atual: No centro da cidade o que há de se esperar? 

Não há mais os velhos casarões nem as fazendas de café, será que existe pouco espaço para os vôos das borboletas azuis? Transforme-se em uma delas, pousando em olhar para outro olhar.

Agora restou uma lembrança da Praça do relógio no Campus da USP, na vegetação rasteira alguns estudantes sentados na grama admiravam um ou outro pôr-de-sol. Estudantes ‘duros’ sem um tostão no bolso... aprendendo a falar algo diferente. Há uma grande diferença em entrar em uma sala de aula e aprender que copo em italiano é bicchiere. A palavra soa aos ouvidos como se fosse virgem. Há uma outra diferença em ouvir uma tia de 80 anos que veio menina para cá... entrar na sua casa dizendo por favor me dê um bicchiere de água (é como se fosse uma pessoa quase virgem, viúva sem namorado...) Ela não lembra do copo, recorda apenas do bicchiere italiano. Há uma nova diferença, quando se entra em todas as casas pedindo um bicchiere d´água depois de ficar meses trocando o copo por bicchiere. (aqui se tem uma amostra de uma espécie de náufrago que devido a pressão tem que comunicar o mais rápido possível aquilo que deseja).

O que é BEM diferente, é entrar na casa de uma pessoa bem "simples"... e exigir que esta lhe dê imediatamente o tal do bicchiere de água.

Com o tempo, há pessoas que porque receberam um ou outro canudo, pensam que sabem tudo, como se fossem os novos donos do mundo! Se esquecem do valor daqueles velhos pores-dos-sóis... aos que não nasceram em nenhum berço russo: estão arrotando presunto imaginando que fosse caviar... no meio de suas articulações a ‘poesia escapa’... porque a poesia para eles têm que ser ‘algo’ muito bem elaborado. Da mesma forma que é muito mais fácil corrigir uma pessoa considerada pequenina em público, por que será que os professores não corrigem professores em público...??? No mínimo de uma correção pública se pode retirar a vontade de não errar mais. Fico aqui imaginando um sujeito que vi neste exato instante fazendo pipi defronte ao muro de casa, o que estaria pensando enquanto olha para uma gleba de mato e outra com novos pés de feijões? É sêo Pedrão, desta janela sempre haverá plantações e um punhado de ervas daninhas à serem retiradas... minha avó as tirava cantando... existe um pouco daquela senhora dislexa em mim... aos sete anos eu experimentava ensinar como se ajuntam as letras:

- Vó por que está difícil???

- Deixa filhinha, só escrever o nome está de bom tamanho, vamos plantar árvores e novas flores?! Sei uma nova receita de bolo de cor, depois vou ensinar prá você.

Sim, Federico Garcia Lorca eu sonho (Trecho...) “ela sonha na varanda, verde carne, tranças verdes, com olhos de fria prata” (Romance 
sonâmbulo) tudo tem a sua hora, o ousado pode cair do barranco se não souber o melhor trajeto para alcançar o topo da montanha.

Quero contar à você que o céu hoje estava anil... não sei se você viu que as nuvens brancas podem fugir de você... não sei se você tem interesse em ver o ar de felicidade de um caminhão repleto de garis jogando dominós no final do expediente; não sei se você notou por aqui a presença de um moço de chinelo dedo na rua tocando violão; ou se está observando os movimentos dos passos da bailarina grafitada no muro da escola pública por algum 'elemento' talvez considerado lunático ou um ex-drogadito; não sei se você percebe que a atriz Sonia Braga não é a mesma de trinta anos atrás, ela atravessou diversos processos... depois que saiu do Brasil e está onde está hoje porque tem que estar.

Toda mente e coração quando se abre para uma nova idéia jamais volta a ser de tamanho original. O que tem por aqui de comum para alguns 
pode ser que não tenha, para outros. Não sei se você vê que pesadelos 
e sonhos nunca serão iguais... Há pessoas que sentem prazer em 
destruir paraísos e outras em construir edificações. No provar das maçãs, felizes são as formigas que saboreiam diversos tipos de folhas 
selecionando as que contem veneno.

No centro da cidade os poemas são vivos, você atravessa a rua e topa 
com um sotaque alemão, no ônibus dois franceses comentem algo talvez 
a respeito de política, o cheiro do chimarrão daqui continua o mesmo... a moqueca capixaba é caprichada, os cariocas aparecem ao se escrever a palavra SOL... Não sei se você vê aqui que um 'antipático sorriso' pode ser transformado em copo d´água fresca, não sei se você viu que por aqui ninguém quer abraçar pessoas com segundas intenções e que o desinteresse é creditado!

No centro das cidades todos que escrevem um pouco, infelizmente se ‘acham’ por um momento o centro, mas não passam de corações... como 
os dos meninos que amanhecem como os passarinhos... rascunhando o 
que há na fala de suas pulsações.

Colho cores verdes, vermelhas... vou deixando que elas amadureçam por si... não sinto sono quando se trata de plantar palavras que levem ao 
amor. Este é mais um de meus beijos de boa noite prá quem quiser receber... não sei se você viu mas eu novamente acordei pensando em um você. 

Nota: O CASO E UM SUJEITO SEM SOBRENOME*
http://rosangelaliberti.recantodasletras.com.br/visualizar.php?idt=110323

Rosangela_Aliberti
São Paulo, 28.X.06 
Arte Arion

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Rosangela Aliberti
Enviado por Rosangela Aliberti em 29/10/2006
Alterado em 02/01/2010


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