Rosangela_Aliberti

"Se a Arte tocar em algum ponto do homem é sinal que alcançou seu objetivo" (r_a)

Textos


FLORES NO TÚMULO

Saudade não tem hora de chegar, ao contrário do pagamento das contas.

Sinto-lhe dizer, mas a saudade é desejável.

Saudade passa como um trem? Saudade, tem cheiro de naftalina no baú; ...se serve para pagar os pecados? Não creio em pecado.

Saudade doentia, é pior que bola de ferro amarrada ao pé, pior do que fantasma sussurrando no ouvido de madrugada, pode ter gosto de fruta presa naquela boca dos dias em que se recolhiam morangos na estação, recurvando as costas com alegria sonhando com a torta, a batida com vinho, a divisão dos potes de geléias...

A... saudade? Não é necessário um brevê de um aviador da esquadrilha da fumaça para se aprender a se desvirar em manobras, a saudade pode não caber na circunferência de nenhum tronco de baobá, mas se pode dar cabo dela, o raio da saudade pode fazer gente sã confabular com as estrelas sabendo que estas não são as mesmas...

Nem sempre dá para escrever sobre alfinetes? Porém, um escritor-faquir persiste em lidar com tais sentimentos de sal e haja lembrança de bolos do arco-da-velha e bom_bocados, até que a saudade se dissolva secando todas as lágrimas desenhadas nas rochas ao redor do Mar Morto, enquanto um possível pobre leitor a distância se chafurdará nos recônditos de alguma memória... saibam que a saudade pode parar na Espanha nos tempos em que imperava a Inquisição, que segundo certos autores é uma das "invenções espanholas", não gosto de divagar muito neste período, talvez porque me ocasione arrepios inexplicáveis, só de pensar no papa Lúcio III que costumava julgar e corrigir os hereges por intermédio de pessoas que estivesse a par dos dogmas, a saudade tem um quê de mágoa...

Os calabouços dos cafunés na angústia teriam saudade de que "cafunés"?!? A saudade, traça mapas das veias das mãos de olhos fechados, quando salta, não esquece a ruga, as rusgas e os ecos dos tons das gargalhadas... nem sempre a voz chegará até o outro pensamento... (graças a Companhia de Jesus!), não tem alcance até a respiração, nem ao menos a visão daquela pele.

Ah! A saudade incomoda, como uma pequena pulga sado-masoquista que pode se transformar em uma luta entre cães, cuja personalidade cultivam uma falta sentida dos donos podendo chegar a morrer... (isto é pura dicotomia) cada vez que se toca na palavra morte algo se vai aos poucos... matando as lembranças, ninguém noticia sobre os lutos por puro divertimento, nenhum poeta descreve uma cruz a toa, até seu repúdio é um movimento de esgrima versus fragrâncias familiares, que se esvainecem de uma hora para outra no meio da rua... o tiro não atravessa o peito porque sabe que possui um colete salva-vidas.

Quando a saudade dói demais é compreensível pousar noutras telas, ILUMINANDO novos ca_valetes.

Saudade demais enferruja o presente, soando como notas de musicais antigas.

No meio do mar novamente se bóia ao se recordar de uma "maledetta" camisa com linhas horizontais (no peito está o centro do tufão! A raiva babando, escorrendo... pulsando que culpa teria aquela camisa-de-prisioneiro? Foi ela quem despertou o “it”) as palavras tomaram rumos sem gêneros definidos... entretanto, náufragos resistentes põem os pés na areia e torcem a água salgada da própria camisa estendendo-a ao sol, na nudez (quando chove, as flores se molham mas de um instante para o outro estão enxutas).

Por detrás da saudade que poderia se agigantar em um vivo triller que já fora assistido acompanhado, não pareceria estranho se de um momento para o outro a TV pifasse pro-po-si-tal_men_te: Pif-páf.

Acorde! Perceba o poder da mente e que nada ocorre ao acaso. Quantos aparelhos de sons já queimaram misteriosamente quando você estava em um outro lado do mundo (literalmente)? Quando as vibrações não estão bem sintonizadas até os aparelhos eletrodomésticos pifados são um sinal. Aquilo que quebra precisava de algum conserto, pois aparelhos nasceram para durar...

Sinta a ausência da temperatura e do suor, ninguém chega perto dos lábios da miragem, é assim que a saudade passa como o realismo... como a última onda quebrada na praia; passa como o som de um apito, ou o último dos fogos de artifícios. E... sorte sua, HOJE você ter trombado com uma frase na televisão ou algo noutra tela lhe sinalizou que saudade demais tem contra-indicações, pode fazer muito mal ...e ainda bem que existe um período de garantia no tempo de funcionamento de qualquer que seja o instrumento.

Rosangela_Aliberti
São Paulo, 12.III.07
Foto-arte: Vanessa Boettcher







Rosangela Aliberti
Enviado por Rosangela Aliberti em 13/03/2007
Alterado em 02/01/2010


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