Rosangela_Aliberti

"Se a Arte tocar em algum ponto do homem é sinal que alcançou seu objetivo" (r_a)

Textos



FELIZ DIA DAS MÃES, MARIA!

Com o tempo a gente descobre que Deus escreve certo por linhas tortas.
Era uma vez Maria, esta recebeu o seguinte elogio de sua mãe bem próximo ao dia das mães: “Você é uma árvore se-ca.”
Ela que nunca fizera um aborto, tinha a capacidade de conceber porém nunca havia engravidado (e para as companheiras que talvez tivessem provocado algum aborto, talvez esta frase soasse como punição tanto quanto... para ela e às mulheres que nasceram com algum problema de saúde que as impedissem de conceber).
É bem certo que o relógio biológico corre... e que ser mãe além de uma dádiva, para algumas é sinônimo de um certo “status”(tanto é que a primeira coisa que perguntam para as mulheres que nunca engravidaram é? Você nunca teve filhos?)
.........
Voltando a Maria, o primeiro impacto “daquela” frase fora a raiva... e se suas contas estavam certas somente após dez anos esta conseguiu digerir a afirmação.
Aah! Quem disse que pessoas aparentemente evangelizadas e/ou equilibradas não podem sentir um tremendo ódio, de algum ente querido? (Bah! a sociedade por vezes é tão hipócrita).

Um belo dia... um raio iluminou a fronte de nossa personagem principal e ela disse a si mesma: - Sim, mamãe, sem dúvida você estava muito brava comigo porque nunca lhe darei netos (e você não tendo mais filhos ficará sem a patente de “vovó”). Era sabido por ela que isto soaria como hilário para alguns, sarcástico para outros, mas no fundo os sentimentos de inadequação perante a situação dela pouco importavam para sua mãe.

Algumas mulheres, tentam preencher o vazio adotam animais de estimação (Maria conhecia algumas que até exageravam), outras não se viam capazes de adotar absolutamente uma criança em seu lar, (o amor era deslocado para outros representantes: sobrinho, afilhados, “alunos”)
algumas sublimavam de tal forma se embrenhando no mundo ilusório da Belas Artes.
E Maria, que havia passado o pão que o diabo amassou em muitos dias de neve... reconheceu a sorte de avistar nos invernos rigorosos, árvores secas acolhendo pica-paus e/ou esquilos ...e com a mudança de estação aquelas árvores secas apesar de não serem frutíferas ganhavam novas folhas... e nem sempre davam flores e frutos, mais agasalhavam novos
pássaros mesmo que por um curto espaço de tempo em seus galhos. Neste movimento em busca de diminuir a frustração é claro que carregava o peso de uma grande metáfora. Maria estava envelhecendo e quanto mais velha, maior a bagagem de vida, e quando tudo pesa no caminho o jeito é deixar por onde anda alguns rastros de seus passos.

E... neste ponto, Maria, pensou e repensou e agradeceu ter nascido exatamente do colo de sua mãe que sem nenhuma gentileza lhe ensinara a ser forte o suficiente para não acolher NENHUM desaforo (pois para ela aquela frase era o pior xingamento na face da Terra, dito da boca logo de quem parecia o horror de uma praga!) pior que os palavrões escarrados de seu maior inimigo; assim sendo Maria se viu imunizada de tal forma que não se permitiu entristecer demais, sendo que por pouco uma de suas mamas não adoeceu (alguns leitores sabem que a conexão mamas e afeto com sentimentos maternais é verdadeiramente estreita) o mundo das mulheres mamíferas é muito mais frágil do que muitos pensam...
Neste outro momento, Maria não conseguiu se auto-destruir e portanto a mãe que ela havia introjetado em si não era tão ruim assim.

Bem no fundo talvez a mãe de Maria tivesse alguma razão, ela bem podia ser uma boa e velha árvore seca sem sentir tão magoada... e nem precisava fingir no dia das mães que não existia algumas vantagens ter nascido “se-ca”. O fato de nunca ter tido frutos não quer dizer necessariamente que estes não seriam bons.

E naquele ano preparou para mais um dia das mães diferente, ao abraçar a sua mãe tinha consciência que esta há tempos tinha esquecido aquele repente de ódio.

Não, não existe mãe ideal... (as pessoas que idealizam os demais, demais), bem como não existe filho ideal. Nada é inteiramente perfeito no mundo, mas tudo tem um sentido que pode ser visto como positivo.

E cá para Maria, seus desejos em maio são: um Feliz dia das mães para todas as mamães: as que se foram, as que ainda são (biológicas, adotivas, representantes da figura materna) e as que nunca serão mães nesta atual existência, como ela.

rosangela aliberti
maio/2014.
Photo: Katia Bonfadini
Rosangela Aliberti
Enviado por Rosangela Aliberti em 09/05/2014
Alterado em 09/05/2014


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