Rosangela_Aliberti

"Se a Arte tocar em algum ponto do homem é sinal que alcançou seu objetivo" (r_a)

Textos


Beijo poético

Passo os olhos nos textos, benditos frutos, pensamentos de vida: provavelmente são páginas abertas ou semi-fechadas... memórias de um dia a mais; provavelmente entre uma linha e outra está um outro e seu avesso, na sombra de um outro entre os avessos... versos criam vida.

Passo os olhos sobre um texto, leio conteúdos mofados de gavetas, mergulho em abismos ouço latidos, a poeira levanta soluços conforme a cor do vento.

Nenhum balançar de folhas é efêmero.

Leio sonhos nos olhos... miados dos gatos no telhado, aguardando uma sapatada de algum vizinho neurastênico.
Sorrio com os gatos na voz do cio, vejo gatos querendo cavar a força um espaço, alimento gatos perdidos, admiro os gatos que brincam com cães... noto os gatos lambendo o próprio pêlo (parecem não estar nem aí com o mundo lá fora). Os gatos estão certos! Os gatos são sábios... 

Escuto o som de cometas (de)cadentes que assoviam em um de meus ouvidos de raspão, semelhante aos aviões que trafegam no céu a hora em que menos esperamos... estrelas caem sobre nosso colo: desejos, sorrisos, lágrimas; seco letras atrás da geladeira, até onde existe o frio se por detrás de um objeto eletônico range sempre algum motor?!

Folias eletrizantes na mata.... bebemos a água das fontes com gás ou sem gás: você aí eu aqui.

Uma formiga escala a grade, é a grade que protege um dormitório:
- Por que pessoas necessitam de tantas barras de ferro estando dentro da própria casa?

Outra formiga carrega uma folha verde, a folha verde se agita no vento... o dia passa e algumas pessoas nem sentem o movimento do vento bater no rosto, quase mudas como um livro aberto tendo as páginas desenroladas: cháp! cháp! cháp!

No meio do deserto um besouro está ocupado em arrastar uma grande bola de gravetos, o besouro trabalha automaticamente, o sol escaldante faz com que sua casca brilhe aquecendo o corpo do pequeno trabalhador... no meio do deserto o besouro trabalha dias e noites para se alimentar.
E toda solidão fala por si. No meio do deserto aparece o vazio de vez em quando não nos sentimos importantes para alguém que desenvolvemos de certo modo um afeto especial, mas dentro do vazio
se tem tudo:
se aprende a ver o colorido de um ipê
se não for um ipê amarelo
se imagina um roxo ou um outro pé de flor
até se chegar no outro...
bons desejos vão saindo das entrelinhas
trombando com as mais sensíveis e simples reflexões
um pequeno comentário construtivo expresso
é uma festa!
soa o efeito de um longo abraço
daqueles que não se tem vontade de soltar os braços
parece a comemoração da chegada de uma carta,
a passagem de férias aguardada com ansiedade
uma aceno marcado
a página lida em voz alta de um diário:
..........................................um beijo!

Dentro do vazio corre um mundo de conversas sem fim...

Dentro do vazio nem sempre todos os bons dias, buenas tardes ou buenas noches conseguem formar ecos: das Lalás para os lelés; das Lilis com os Lolós e seus lulus...

Meu caro amigo eis meu beijo poético, obrigada por você escrever.. 

Obrigada por você existir em algum lado do mundo nem tudo é tão deserto.

Mormaço a tarde
um sábia repousa
na árvore seca 


São Paulo, 27.X.05 
Fotografia: Pat Bell
 

Rosangela Aliberti
Enviado por Rosangela Aliberti em 27/10/2005
Alterado em 25/11/2005


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