Rosangela_Aliberti

"Se a Arte tocar em algum ponto do homem é sinal que alcançou seu objetivo" (r_a)

Textos


Flor do bogari

Palavras semeadas são bem diversas do que palavras plantadas. Jamais encontrei segurança (estrutura) em uma só palavra porque o que é feminino nem sempre para alguns é o artigo definido para outros. Uma só palavra possui diversas significações admiro quem sabe escrever poesia pois é corajoso suficiente para expor pensamentos de maneira poética. Há poetas que cantam e outros são verdadeiros monstros marinhos.
Por que uma palavra definida com um “artigo feminino” pode ser encontrada em outro país com artigo masculino e outras com artigos “neutros” para uns e outro para outros? Qual a origem da identificação de uma palavra? Por mais que seja a letra lapidada em diversos idiomas, tocá-la no meio da solidão é como se estarrecer diante da primeira visão do mar.

O silêncio nunca tem nada a dizer!?!

O que é o mar para quem nunca viu e ouviu o estrondo de suas ondas flutuantes? O que é o mar para um turista? uma criança? um náufrago? um sonhador? um oceanógrafo? um comerciante? um político? um bispo? um astronauta? um Netuno? um peixe...? O que é o mar para quem está entre demônios e anjos? Como se atravessa o fogo sem o perturbar? O que se significa um mar de água, de vinho, de sangue, de algas em um verde-jardim...?! O que se pode perceber na busca de um mar... do seu toque, se o arrebentar nas rochas às vezes estremece e às vezes se torna imóvel quanto a leitura de uma página de um livro... (até que ponto vai a flexibilidade, para quem nunca sentiu o odor da maresia nem viu da massa líquida salgada saltarem seres nas águas?!).

Como se constrói a agitação, as espumas e a Esperança...?

Entendo porque há pessoas que viajam e levam um pouco do pó de uma terra na mala para o local que irão (re)fixar suas raízes; compreendo a felicidade de quem quer dividir um momento de gelo, ao colocar um pouco de neve no interior de um isopor tendo em sua própria casa um freezer ao se transportar a neve para um mundo tropical. Congelando um instante, respeito a loucura e a saudade que não se escreve nas folhas dos cadernos e nem nos livros, saudade não se pesa, mas pode angustiar... quando a nostalgia castiga na falta avassaladora de algo ou um momento que fora perdido.

Sendo assim, pedra não é somente uma pedra é mais do que uma parte de um moldada pela Natureza. Pedra é granizo. Pedra é o incomodo andar com um cálculo no sapato; pedra é chamar alguém na chincha sem pôr uma pedra no assunto... pedra é ter o dom de chamar a atenção de alguém até chorar toda uma comoção que não se tinha sentido... pedra é segurar a mão de alguém para que a injustiça não seja cravada... pedra é não se sentir totalmente o frio imola_dor numa pedra de sacrifícios. Momento pedra é aquele do aparar arestas irregulares de uma antiga roda em movimento, ao se ouvir o barulho de uma “pedrinha n’água” o resultado dos reflexos circulares no rio pode ser que se torne em tesão ao experimentar “dobrar” a cabeça de um sujeito calhau pois toda pedra que é pedra pode fazer parte de um jogo, pois é uma das peças no tabuleiro.

Existem pessoas que escrevem com o sentido de quem nunca visualizou sequer o curso de um rio na vida. Você pode abrir um mapa e escolher um rio que nunca viu e descrevê-lo, poderá ter contato com outro rio parecido, mas nunca será aquele ou outro rio. Porque o que se passa dentro de um rio não é sentido nas asas de um avião... se pode entrar em contato com os contornos de traços tortuosos e o verde das folhas nas bordas das margens a distância, se pode observar plantações, seca, ou lama porém nem todos vêem que nestes traços da paisagem se pode tocar nos pássaros e nos seus cânticos no interior das árvores. Se a força da chuva arrasta casas na correnteza somente quem teve uma casa perdida entende os estragos e os transtornos gerados pela dor em estado de calamidade interna... admite os sentimentos da carência e tem energia suficiente para um recomeçar ao se encontrar na estaca zero. Repito, como uma onda que retorna: Há poetas que cantam e outros são verdadeiros monstros marinhos. Às vezes eu não gostaria de conversar com nenhuma poesia porque me ocasiona a impressão de estar discutindo com o vento... com o vento que nunca morre e sai dos confins dos Judas! Que é muito diferente da sensação de se cantar uma música.

Com isso me pergunto o que é um simples cão para quem nunca teve contato com um animal tão doméstico; descrever um latido não é sentir a entonação de um só “au”, ou melhor como se pode ler a palavra sem encontrar a tonalidade do pêlo que recobre o osso do rabo que abana algum sinal de alegria do dono daquele timbre?

Pisar sobre folhas amareladas no chão de um bosque no outono é o experienciar a troca de uma das mudanças nas estações internas, assim como caminhar no meio de um campo de trigo sem imaginar se naquele campo dourado poderá haver algum animal silvestre assustado desviando de passos sonoros.

Tenho consciência que... quem (com)viveu em um tempo onde o bucolismo imperava, é bem diferente de quem nasceu em uma nova avenida, repleta de buzinas, do cheiro do asfalto recauchutado e edifícios com suportes de ferro nas bases:

Construção

Um grito pula no ar como foguete.
Vem da paisagem de barro úmido, caliça e andaimes hirtos.
O sol cai sobre as coisas em placa fervendo.
O sorveteiro corta a rua.
E o vento brinca nos bigodes do construtor.

Carlos Drummond de Andrade

*

Só Gonçalves Dias teria a capacidade de deitar o perfume da Pérsia nas páginas e eternizar primeiro “bogari”, por que será que o escritor se encantou com tais flores brancas que mistérios existem por trás de uma palavra... suas pétalas teriam as formas de jasmins-estrelas inocentes? Diante de tanta sonoridade entre os jasmins-neve, asas-de-anjos, jasmins-dos-açores, jasmins-amarelos, os da china, italianos, espanhóis e os jasmim-dos-poetas... escolheu bogari. Passam-se dias tecidos tal qual as mudanças na moda e a palavra  “algodoal” sai de um dos livros de Graciliano Ramos onde se pode estabelecer um paralelo com um vasto campo de riqueza, mesmo verificando que muitos desconsideram as representações das palavras junto a imagens (nada pode ter uma significação tão pobre).

Uma ilustração é um dos canais para ampliar uma imagem mental, é um dos degraus para se (tentar) alcançar um outro olhar e mesmo quem não pode enxergar continuará na (sua) escuridão não vendo tudo, como quem pensa que vê demais e na verdade não está sentido o que vê. Definir o conceito de uma palavra sem esbarrar no que se está em um dicionário é entrar uma nova região, é como sentir a voz de um nômade querendo entrar em contato com o outro, ao compartilhar um pedaço da mesma ilha de passagem. O silêncio é um soluço, o silêncio é a perplexidade, no silêncio uma sequência rápida de imagens dão vida à novas idéias sem ponto e vírgula o fato de não gostar de um comentário necessariamente não se quer dizer que se deva encarar a realidade do outro como se esta “verdade” fosse um abismo.

Nem todos procuram o valor da flor de um bogari, pode ser que estas letras fiquem por aí jogadas, por diversos anos em algum canto qualquer do mar feito uma garrafa boiando com um cartão postal enrolado como um canudo em seu interior...

Esta carta foi o bendito fruto de uma só palavra com doce aroma da inocência de um flor, que ao nascer não se sabe até que ponto suportará viver...

Rosangela_Aliberti
São Paulo, 03.IV.08
Foto do bogari, 
de origem desconhecida

Rosangela Aliberti
Enviado por Rosangela Aliberti em 03/04/2008
Alterado em 17/04/2008


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